As pinturas que Fábio Baroli apresenta na Zipper Galeria podem dar a impressão de que o artista aboliu o retrato em sua produção. Reconhecido por representar cenas interioranas – o modo de vida “matuto”, como o próprio alcunha –, Fábio Baroli vem retirando a presença humana das pinturas desde o site specific “Pra lá de dois pé-de-gabiroba” (CCBB Brasília, 2015). Em 2019, em sua primeira individual na Zipper Galeria, também não havia pessoas representadas. O mesmo se repete, agora, na exposição “HOTSPOTS - Memória, imaginação e resistência”.
Muito conhecido pelas pinceladas marcadas e pelo domínio pictórico, sobretudo do chiaroscuro, o artista mineiro Fábio Baroli vem transferindo, há algum tempo, o protagonismo em suas pinturas, da figura humana para a paisagem. Apropriando-se de temas e conceitos ambientalistas, o artista propõe uma reflexão sobre o especismo, o antropismo e a relação do homem com o meio. O título da sua segunda exposição individual na galeria Zipper, “HOTSPOTS - Memória, imaginação e resistência”, muito bem representado pela composição das obras, faz alusão a regiões de singular biodiversidade e que, ao mesmo tempo, sofrem com constantes ameaças de extinção.
A exuberância dos trabalhos reproduz, em proporções reais, algumas espécies endêmicas da flora do Cerrado e traz consigo reflexões sobre a paradoxal relação humana com aquilo que é substancial, para sua existência, bem como sobre as relações de dominação e poder do capital e da terra.
A escolha do bioma vem não só da influência e da memória do lugar de origem do artista, mas também do contexto de obliteração em que o Cerrado, segundo maior bioma brasileiro, vem passando desde o período colonial. A partir de então, não só ele como demais regiões de hotspots brasileiros passam por um incansável processo de devastação, que tem sido agravado pela flexibilização e negligência de políticas ambientais que atendem ao agronegócio e submetem o país à condição de subserviência e de entreguismo ao estrangeiro.
Não por acaso, Baroli apresenta uma mudança de técnica na preparação de suas telas, com fundos à base de polímeros transparentes, os quais nos permitem visualizar o algodão do suporte. Ele, que até então se utilizava do gesso cré como base para a pintura, nos conduz agora para o diálogo sobre as influências antrópicas nos espaços naturais, já que a monocultura do algodão é uma das atividades agrícolas que mais (des)ocupam áreas de Cerrado no Brasil.
“HOTSPOTS - Memória, imaginação e resistência”, trata-se de uma exposição demasiadamente significativa para o movimento de interlocução entre a arte, as ciências humanas e as ciências naturais, pois nos coloca defronte às relações do homem com o uso e o manejo da terra, com a sua subsistência e, também, com a sua interação com outros seres. A partir dessa imersão, temos a chance de descobrir que permeamos ora no excepcionalismo humano, ora na perversidade, uma vez que, por mais que saibamos dos prejuízos que causamos ao meio, ainda assim insistimos em nossa autodestruição e na aniquilação de vidas primordiais à nossa sobrevivência.
A composição dos buritis na parede, sugerindo as formações de veredas, a grandiosidade das obras, as características industriais das bobinas de tecido acomodadas no chão, e a forma como o artista preenche o espaço expositivo e a imaginação do observador nos convida à epifania subalterna de nós em relação às árvores. Ao mesmo tempo, nos leva a provar a miscelânea de sensações que estão relacionadas às nossas competências e aptidões, uma vez que estamos diante de uma produção artística, algo essencialmente antrópico.
É certo que a exposição em questão nasce do desdobramento da série “Selva-Mata”, a primeira série de pinturas de Fábio Baroli que representa o “retrato da paisagem”. Nua e crua. Tal qual as cores primárias que utiliza. Agora, com a representação de um novo bioma, e com muito mais apropriação do lugar, o artista mantém o uso do magenta e do amarelo, não só representando a pureza das cores, como também a lucidez de uma paisagem viva. Tão viva que, durante o processo de execução das obras, em seu ateliê de Uberaba, Baroli narra a visita de abelhas que, seduzidas pelas cores, anunciam o legado da resistência.
Andréia Narciso
















As pinturas que Fábio Baroli apresenta na Zipper Galeria podem dar a impressão de que o artista aboliu o retrato em sua produção. Reconhecido por representar cenas interioranas – o modo de vida “matuto”, como o próprio alcunha –, Fábio Baroli vem retirando a presença humana das pinturas desde o site specific “Pra lá de dois pé-de-gabiroba” (CCBB Brasília, 2015). Em 2019, em sua primeira individual na Zipper Galeria, também não havia pessoas representadas. O mesmo se repete, agora, na exposição “HOTSPOTS - Memória, imaginação e resistência”, que pode ser visitada a partir deste sábado, dia 15 de maio.
Entretanto, a produção de Fábio Baroli caminha, cada vez mais, para a antropogenia, ou seja, para a investigação do que seja o humano. Árvores típicas do Cerrado brasileiro, como ipês e buritis, muitas em tamanho real, grandiosas, surgem na exposição individualizadas, como modelos, abstraídas de seu contexto e deslocadas para o espaço de contemplação. E é neste processo que o humano nesta produção se revela.
A própria abstração – ou seja, a operação intelectual de isolar objetos e fatores do seu contexto de existência – é essencialmente humana. Hotsposts, por sua vez, é um conceito das ciências ambientais passível de entendimento apenas a partir da ação antrópica: o conceito indica áreas de espécies vegetais e animais endêmicas, constantemente ameaçadas de extinção. O Cerrado, salvaguardado nas memórias do artista, é um dos 35 hotsposts demarcados no planeta.
O processo de Fábio Baroli é, talvez, o principal que aproxima sua produção naturalista à antropogenia. “Eu sempre trabalhei a partir do retrato. E isso se mantém, mas agora são retratos de plantas. Cada uma delas se passou por um processo de individualização e se transformou em um ente, com memória, inteligência e personalidade próprias”, diz o artista. Este “saber oculto” das plantas tem sido objeto de investigações de Fábio Baroli, que busca agora uma representação visual à altura: imponentes em dimensão, cor e luz, os ipês de Fábio Baroli revelam suas raízes a partir do desenrolar das telas pelo chão da galeria. O artista faz menção ao pergaminho, ao que está oculto aos olhos e escapa à razão humana.
Segunda individual do artista na galeria, a exposição “HOTSPOTS - Memória, imaginação e resistência” fica em cartaz de 15 de maio a 12 de junho. Andréia Narciso assina o texto crítico da mostra.
Sobre o artista
O trabalho de Fábio Baroli (Uberada, 1981) descende do ramo artístico de Almeida Júnior (1850-1899). Fábio expressa uma visão de mundo ancorada na vivência interiorana e no imaginário regional. Gêneros tradicionais — como retrato, paisagem e natureza-morta — se misturam às cenas do cotidiano em pinturas com gestos bruscos e marcantes, em trabalhos que revelam marcas de edição (montagens, colagens e intervenções) características de programas digitais. A apropriação e a referência da imagem fotográfica fazem parte do processo do artista. Vencedor dos prêmios Funarte de Arte Contemporânea (2011) e Marcantonio Vilaça (2013), o trabalho de Fábio Baroli consta em coleções como MAM Rio, Museu de Arte do Rio e Museu Nacional de Brasília. Principais exposições individuais: Goliath, MuseumsQuatier, Viena (2017); Deitei pra repousar e ele mexeu comigo, CCBB Brasília (2016); Muito pelo ao contrário, CCBNB, Fortaleza (2014); Vendeta: a Intifada, Funarte, Recife (2013). Principais exposições coletivas: Contraponto, Museu Nacional de Brasília (2017); É tudo nosso, Casa da Cultura da América Latina, Brasília (2017); Vértices – Coleção Sérgio Carvalho, Centro Cultural Correios, Braslília, Rio de Janeiro e São Paulo (2015/2016); Prêmio Aquisições Marcantonio Vilaça, Museu de Arte Moderna MAM Rio, Rio de Janeiro (2013).
Texto crítico: Andréia Narciso
Andréia Narciso é produtora cultural pelo Centro de Pesquisa e Formação Sesc-SP, bióloga, professora e mestre em Ciências da Saúde pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia – UFU, com pesquisa vinculada ao laboratório de Nanobiotecnologia do Instituto de Genética e Bioquímica da instituição.



