Na primeira exposição do programa Zip’Up em 2021, a Zipper Galeria recebe a mostra “nebulosa abóbada celeste, concha azul fincada no céu”, primeira individual da artista paulistana Paloma Mecozzi. Com pinturas e objetos em cerâmica, a exposição pode ser visitada de 15 de maio a 12 de junho de 2021.
Em seu trabalho, Paloma Mecozzi está em constante questionamento sobre a imagem e suas simbologias. Não obstante, em sua pesquisa, a artista eventualmente recorre ao uso da palavra como ferramenta. Em "Nebulosa abóbada celeste, concha azul fincada no céu", embora a palavra não esteja presente diretamente nos trabalhos reunidos na exposição, o próprio título escolhido para a mostra alude à uma liberdade associativa entre imagem e texto, prática que muito interessa a artista e tem sido explorada em outros de seus trabalhos.
Para essa individual, a artista preparou um primeiro conjunto de pinturas que, em uma camada discursiva inicial, aborda um tema tradicional das artes visuais: a paisagem. Paloma apresenta pinturas que remetem a registros de florestas, montanhas, rios e céus, que trazem uma leitura filosófica sobre a construção de uma paisagem, não somente externa, mas interna. Essa relação interna, inclusive, é potencializada nas telas que dão indícios de camas recém ocupadas. E há nessa intenção uma potência ambivalente. Ao nos deparar com essa relação de uma ausência constante em seus quadros, observa-se um desejo latente de presença, como se precisássemos preencher tais lacunas deixadas pela artista.
Transitando entre o figurativo e o abstrato, Paloma cria um interessante diálogo entre obra e espectador, uma vez que a artista não entrega uma interpretação nem óbvia, nem literal sobre a ideia de paisagem. Assim como o título desta exposição, as pinturas estão livres para interpretações conforme nosso próprio repertório.
Dessa forma, o trabalho adquire por si só um caráter dualístico. O azul, o verde e o vermelho intenso fazem parte de uma cartela de cores comum que permeiam todas as pinturas, apontando uma escolha ora racional, ora intuitiva da artista para as sensações que ela pretende despertar. As paisagens quase noturnas transitam entre o silêncio meditativo e o medo do desconhecido, que aqui também funcionam como forças opostas: atração ou repulsa. Já as camas nos colocam na expectativa da espera de quem partiu ou de quem está por vir. Mas há uma pintura que guarda muito bem em si tais contradições: enquanto o tecido esconde algo que não pode ser revelado (embora dê indícios daquilo que guarda), o ovo nos faz pensar em algo que está por vir, seja vida, seja alimento; que também é base para vida.
Se a pintura é um recurso utilizado pela artista para nos fazer rememorar essas imagens das paisagens externas e internas que nos circundam, as cerâmicas presentes na exposição trazem novamente um contraponto interessante, seja em materialidade, seja em subjetividade, cabendo aqui também uma discussão entre natural e artificial. Desse jogo de forças entre contradições e dualidades, Paloma cria uma poética que nos faz lidar com a dimensão do que há de mais íntimo em nós: nossa própria humanidade e como decidimos perceber o mundo ao nosso redor.
Carollina Lauriano

Na primeira exposição do programa Zip’Up em 2021, a Zipper Galeria recebe a mostra “nebulosa abóbada celeste, concha azul fincada no céu”, primeira individual da artista paulistana Paloma Mecozzi. Com pinturas e objetos em cerâmica, a exposição pode ser visitada a partir deste sábado, dia 15 de maio.
“Paloma apresenta pinturas que remetem a registros de florestas, montanhas, rios e céus, que trazem uma leitura filosófica sobre a construção de uma paisagem, não somente externa, mas interna”, escreve Carollina Lauriano, que assina a curadoria da exposição.
O trabalho da artista levanta questões em torno da imagem e suas simbologias e foi, a partir dessa investigação, que Paloma foi montando a expografia e pensando as relações entre as diferentes pinturas e objetos apresentados. “Assim como o título desta exposição, as obras estão livres para interpretações conforme nosso próprio repertório” comenta Lauriano.
A mostra “nebulosa abóbada celeste, concha azul fincada no céu” fica em cartaz até 12 de junho de 2021.
Idealizado em 2011, um ano após a criação da Zipper Galeria, o programa Zip’Up é um projeto experimental voltado para receber novos artistas, nomes emergentes não representados por galerias paulistanas. O objetivo é manter a abertura a variadas investigações e abordagens, além de possibilitar a troca de experiência entre artistas, curadores independentes e o público, dando visibilidade a talentos em iminência ou amadurecimento. Em um processo permanente, a Zipper recebe, seleciona, orienta e sedia projetos expositivos, que, ao longo dos últimos anos, somam mais de cinquenta exposições e cerca de 70 artistas e 30 curadores que ocuparam a sala superior da galeria.
Sobre a artista
Paloma Mecozzi (1989, São Paulo. Vive e trabalha em Piracaia, SP) é formada em Arquitetura e Urbanismo e trabalha com direção de arte para cinema. Em sua pesquisa, a artista levanta questões em torno da imagem e suas simbologias. Embora tenha a tela como suporte predominante em seu trabalho, Paloma também se utiliza de objetos tridimensionais e da palavra como ferramenta para pensar a construção de novas imagens. Participou de algumas residências artísticas, dentre elas: Pivô (2019 - SP), Astra (2018 - Spoleto, Itália), Residência Fazenda São João (2012 e 2014 - RJ), Casa das Caldeiras (2012 - SP). Foi premiada pela editora Lote 42 por VERMELHO (Vibrant Editora, 2015) como melhor livro de artista. Expôs em coletivas no Ateliê 397, Oficina Cultural Oswald de Andrade e Pivô. Foi selecionada para o 12º Salão dos Artistas Sem Galeria. Nebulosa abóbada celeste, concha azul fincada no céu é sua primeira mostra individual.
Sobre a curadora
Carollina Lauriano (1983, São Paulo. Vive e trabalha em São Paulo) é formada em Comunicação Social com ênfase em Jornalismo. Tem extensão em Pesquisa e Análise de Tendências (em arte, design e moda) pela Central Saint Martins/University of the Arts London (UAL) e atua como curadora independente desde 2017. De 2018 a 2020 integrou o time de curadoria e gestão do Ateliê397, um dos principais espaços independentes de arte de São Paulo. Em suas pesquisas, interessa discutir a inserção, desafios e conquistas de jovens mulheres artistas no mercado da arte. Dentre os principais projetos realizados estão as exposições "Corpo além do corpo", que discute a transexualidade feminina e a busca pelo protagonismo de novos corpos na sociedade, "Céus Cruzados", individual da artista Sol Casal e "A noite não adormecerá jamais nos olhos nossos", que reuniu artistas racializadas na Galeria Baró para apresentar e discutir a produção de corpos dissidentes dentro do mercado de arte. Curadora adjunta da 13ª. edição da Bienal do Mercosul, mostra que acontece em Porto Alegre em 2022.