Quem viveu os anos 1970 sabe muito bem o que são as paisagens de pôr-do-sol carregadas nas tintas, encontradas em feirinhas hippies quaisquer. Ou ainda as estampas nas camisetas de surf da marca californiana Hang Ten. Mas essas são referências de um repertório pop demais, um pouco indigestas para os cânones formais da arte contemporânea.
Aqui, nesta nova individual de Mauricio Parra no projeto Zip’Up, o artista trabalha com o rigor técnico de pinturas renascentistas, com suportes como o bolo armênio e óleo sobre madeira para olhar o mundo de hoje e traduzir sua poesia. Parra, formado em arquitetura e discípulo de Rubens Matuck aprendeu com o mestre técnicas tradicionais e, com foco e determinação, vem produzindo incansavelmente pinturas, aquarelas e gravuras com seu olhar de observação do hoje.
Seja em naturezas-mortas compostas por objetos e embalagens de remédios do seu cotidiano, seja nos retratos de amigos e autorretratos ou nas paisagens paradisíacas, onde estuda e pensa sobre a passagem do tempo e da luz e suas interpretações, o artista constrói discursos que dizem respeito a ele e a todos nós.
Nesta série com nuvens, sóis, mares e luas as cenas reforçam o prazer de um olhar sensivelmente estranho. Se nos contornos e contrastes muitas vezes vêm a referência de uma pintura mais regional como do, hoje consagrado, mineiro Lorenzato, ou até dos metafísicos de outrora, que Mauricio tanto aprecia, aqui ele quebra paradigmas, transformando o gênero quase que em uma experiência de viagens lisérgicas, levando a intenção da pintura com excelência pictórica para instâncias de afeto. Escapismos dos bons, para tempos de guerra. Se “além do horizonte existe um lugar”, a nova série de paisagens de Parra parece reforçar que “do que vale o paraíso sem amor?”*.
Renato De Cara
*Trechos extraídos da música Além do Horizonte, de Erasmo Carlos e Robertos Carlos, 1978.
“Além do horizonte deve ter algum lugar bonito pra viver em paz
Onde eu possa encontrar a natureza, alegria e felicidade com certeza
Lá nesse lugar o amanhecer é lindo, com flores festejando mais um dia que vem vindo
Onde a gente pode se deitar no campo, se amar na relva escutando o canto dos pássaros
Aproveitar a tarde sem pensar na vida, andar despreocupado sem saber a hora de voltar
Bronzear o corpo todo sem censura, gozar a liberdade de uma vida sem frescura
Se você não vem comigo, tudo isso vai ficar no horizonte esperando por nós dois
Se você não vem comigo nada disso tem valor, de que vale o paraíso sem amor?
Além do horizonte existe um lugar, bonito e tranquilo pra gente se amar!”












A partir do dia 21 de novembro, as paisagens do artista Mauricio Parra tomam o espaço do programa Zip’Up. A exposição individual Se Você Não Vem Comigo Nada Disso Tem Valor, com curadoria de Renato de Cara, reúne uma parcela da produção recente do artista, que revela sua obstinação por observar, ler e reler a paisagem natural. São 45 pinturas em madeira, em pequeno formato, que compõem um painel em que predomina as relações entre experiência, lugar, contemplação e memória afetiva.
A pintura de observação direta acompanha o artista desde o início de sua produção; desde 2017, o objeto desta observação passou a ser majoritariamente a paisagem. Muitas vezes, Mauricio Parra revisita as mesmas paisagens para, a partir das mesmas perspectivas, produzir registros diferentes. Em outros casos, produz a partir de pinturas já realizadas, como se buscasse neste ato de repetição o lugar na memória na produção pictórica. A este processo ele dá o nome de “observação indireta da paisagem”.
Emprestado de um verso da canção Além do Horizonte, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, o título da exposição amarra a dimensão afetiva na produção do artista. “Estas pinturas remetem ao campos do cuidado e do afeto. Veja nelas relações de amizade, amor, carinho. Da preparação dos materiais e suportes à finalização da pintura, tudo é ao mesmo tempo criterioso e emotivo”, diz Mauricio Parra. Se Você Não Vem Comigo Nada Disso Tem Valor fica em cartaz até 10 de janeiro de 2020.
Idealizado em 2011, um ano após a criação da Zipper Galeria, o programa Zip’Up é um projeto experimental voltado para receber novos artistas, nomes emergentes não representados por galerias paulistanas. O objetivo é manter a abertura a variadas investigações e abordagens, além de possibilitar a troca de experiência entre artistas, curadores independentes e o público, dando visibilidade a talentos em iminência ou amadurecimento. Em um processo permanente, a Zipper recebe, seleciona, orienta e sedia projetos expositivos, que, ao longo dos últimos oito anos, somam mais de cinquenta exposições e cerca de 70 artistas e 30 curadores que ocuparam a sala superior da galeria.
Sobre o artista
Mauricio Parra (São Paulo, 1976) é formado em Arquitetura e Urbanismo pela Unitau. Utiliza-se das técnicas da pintura a óleo, da gravura em metal para representar o universo de interesse de seu olhar. Freqüentou os ateliês de artistas como Rubens Matuck, com quem aprendeu sobre suportes, pintura a óleo e aquarela, o ateliê de gravura do museu Lasar Segall, onde se aprofundou no aprendizado das técnicas de gravura em metal, e o ateliê do mestre impressor Roberto Grassmann. Participa de exposições e salões dentro e fora do Brasil desde 2006. Em 2007, recebeu Premio especial na 3ºBienal de Nacional Gravura de Atibaia. Em 2009, recebeu menção Honrosa na Internacional Small Engraving Salon, na Romênia e no mesmo ano o premio de Jovens Artistas realizado pelo Espaço Cultural Citi Bank. Realizou residências em Gludsted (Dinamarca, 2013), em Marianowo (Polônia, 2015) e no Mosteiro Zen, no Morro da Vargem (Brasil, 2018). Como resultado das residências, fez duas exposições na Galeria Mezanino, SP. Memórias do sol as 21h30 em 2014 e Um Verão em Marianowo em 2015 e A Vista do Morro na OÁ Galeria em Vitória, ES, em 2018. Em 2016, realizou a exposição individual A ausência é um estar em mim na Galeria Mezanino. Em 2018, participou da Coletiva EscapLand na Galeria Marta Traba no Memorial da América Latina. E, em 2019, realizou a exposição individual Paisagem, Tempo e Memória, na OÁ Galeria, em Viória, ES.
Sobre o curador
Renato De Cara (Lins, 1963) é curador independente, crítico de arte e gestor cultural especializado em estética contemporânea. Foi diretor e curador da Galeria Mezanino de 2006 a 2018. Dirigiu o Departamento de Museus da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo entre 2017 e 2019. Atualmente, é consultor e curador de arte da Galeria Virgíiio e do B_arco Centro Cultural. Também responde pelas relações curatoriais e coleções para o mercado da arte global na plataforma digital Artboom.
