A linguagem é simbólica. Símbolos, signos e ícones constroem a identidade dos meninos jovens, da zona periférica do Rio de Janeiro. Em suas pinturas, Igor Nunes cria narrativas a partir de sua própria experiência dentro deste território. O artista retrata uma variedade de códigos pertencentes a esse grupo social, que se organiza a partir da comunicação por signos convencionais, sonoros, gráficos e gestuais.
É intrínseca a relação da linguagem com territorialidade. O processo de colonização nas Américas determinou um papel importante à língua: os marcadores territoriais, por vezes, eram determinados pela variante linguística. Com isso, a linguagem não apenas transmite uma informação, mas detém um caráter fundamental sobre a cultura pela qual é usada - intervir na linguagem é intervir na identidade de um povo. Afinal, a linguagem é um fenômeno social que constitui nossa identidade.
“Falar é existir absolutamente para o outro. (...) é estar em condições de empregar uma certa sintaxe, possuir a morfologia de tal ou qual língua, mas é sobretudo assumir uma cultura, suportar o peso de uma civilização”.
(FANON, Frantz. Pele Negra, Máscaras Brancas, p. 33.)
Uma história narrada em terceira pessoa, e no plural. Os cria. É a definição de um grupo que partilha de normas, valores, hábitos e costumes próprios. A forma de se comunicar: escrita, fala e digitação, envolve relações étnico-raciais, de geração, e detém classificações e aspectos de sustentação e inserção social. A linguagem constitui os sujeitos.
Os gestos e sinais com as mãos - podem simbolizar o pertencimento a uma determinada localidade - funcionam no lugar da palavra, por exemplo: os dois dedos levantados que simbolizam tranquilidade. Os cortes de cabelo "régua máxima", "corte do jaca", "corte americano" e cores de cabelo "nevou, loiro pivete", assim como, os ícones de moda, chinelos, e tênis, são marcadores de distinção entre centro-periferia.
Esta exposição é também uma forma de elaboração do repertório que caracteriza a cultura periférica e urbana carioca, em especial, o cenário do funk e do rap. O artista traça uma cartografia de objetos que figuram elementos periféricos, reconhecíveis, caracterizando um movimento de resgate e orgulho, bem como o de representar uma cena da contemporaneidade, a fim de contextualizá-la, exaltando sua importância.
Núria Vieira
São Paulo, 31 de março de 2022







