Os preconceitos têm mais raízes do que os princípios.
Nicolau Maquiavel
A poesia não há de ferir o bruto. Mesmo quando usada como arma de defesa, de contra ataque, de esperança, ela é inofensiva frente às mentes impermeáveis e corpos alienados. Estes, talvez por orgulho ou quem sabe por ignorância não se enxergam parte do todo, não reconhecem em sua dor a mesma raiz da do seu semelhante. Não se vêem como semelhantes. Mesmo que no intervalo entre o acordar e o dormir a jornada, o cenário e os personagens sejam idênticos, o insensível só há de reconhecer (sua) verdade no espelho. Como tônica da contemporaneidade, em seus autorretratos hiper filtrados nas redes sociais, onde apresenta ao outro não o que é, e sim o que gostaria de ser.
Citando José Saramago, “A História é tão pródiga, tão generosa, que não só nos dá excelentes lições sobre a atualidade de certos acontecidos outrora como também nos lega, para governo nosso, umas quantas palavras, umas quantas frases que, por esta ou aquela razão, viriam a ganhar raízes na memória dos povos.” A poesia é necessária onde somos afligidos pelo medo e pela inquietude. Em tempos como agora, ela é código para escrever a história, que mesmo disfarçadamente silenciada pelas instituições de poder, há de ser revista e contada para além dos grupos de WhatsApp.
Por viver muitos anos dentro do mato
moda ave
O menino pegou um olhar de pássaro —
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava as coisas
por igual
como os pássaros enxergam.
Manoel de Barros
Há aves que pousam sobre o gado e generosamente se alimentam de suas pragas, lançam sementes, fertilizam o solo e trazem vida. Vitor enfrenta poética e metaforicamente as asperezas de nossa realidade política e social com a subjetividade do desenho firme, com os laços doces das raízes fortes e com a astúcia da crítica travestida de beleza. A virtuosidade de suas obras, por vezes, engana o olhar distraído, que deixa de perceber a subversão delicada dos valores da academia, a poesia sutil das narrativas, a natureza morta como metáfora, a ancestralidade, a fé. Já Vitor Mizael enxerga como pássaro, enxerga as coisas por igual. Nos informa através de seu vôo que é preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já. Para concluirmos, como Nietzsche, que quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar.
Bruno Miguel






Ainda que em transição, o trabalho de Vítor Mizael não abandona o olhar em torno da memória. Em séries passadas, o artista refletia sobre a noção de patrimônio e conservação, priorizando suportes que exprimiam a vulnerabilidade e a perecibilidade da matéria. Agora, o interesse do artista migra para outra perspectiva do mesmo objeto: questões como afetividade e ornamento, e como elas se expressam no espaço e se acumulam ao longo do tempo, viram seu foco. Por isso, ao lado do desenho, surgem bordados em linho, pinturas em azulejos das décadas de 1970 e 1980, objetos em metal que remetem a padronagens de portões domésticos tão característicos das casas de São Paulo. Parte desta produção recente de Vítor Mizael está em sua nova exposição individual no programa Zip'Up, aberta a partir de 29 de fevereiro.
Desde o início de sua pesquisa, Vítor aborda as figuras animais e botânicas pela ilustração científica. Ele se apropria de manuais catalográficos para criar novas formas e buscar outras relações entre os trabalhos que se confrontam no espaço expositivo. Nesta individual, os trabalhos revelam a virtuose do desenho e seu poder de rompimento com a representação do real. Em estandartes de linho bordado e portões soldados, convivem o que antes eram opostos: serpentes e o pássaros - duas figuras frequentes no trabalho do artista - deixam os meros status de "predador" e "presa" e assumem novas simbologias.
Segunda individual do artista na Zipper, a mostra fica em cartaz até 28 de março.
Idealizado em 2011, um ano após a criação da Zipper, o programa Zip'Up é um projeto experimental voltado para receber novos artistas, nomes emergentes não representados por galerias paulistanas. O objetivo é manter a abertura a va-riadas investigações e abordagens, além de possibilitar a troca de experiência en-tre artistas, curadores independentes e o público, dando visibilidade a talentos em iminência ou amadurecimento. Em um processo permanente, a Zipper recebe, seleciona, orienta e sedia projetos expositivos, que, ao longo dos últimos oito anos, somam mais de cinquenta exposições e cerca de 70 artistas e 30 curado-res que ocuparam a sala superior da galeria.
Poemas Visuais na Zipper
A Zipper inaugura no dia 29 de fevereiro um projeto de ocupação da fachada da galeria com poemas visuais. A ideia é que, a cada nova abertura de exposições na galeria, se inaugure um novo poema visual na fachada, ao longo de 2020.
A primeira ocupação será realizada pelo artista Tadeu Jungle com o trabalho VOC? ESTÁ AQUI, que hoje também preenche a empena de 555 m² do Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC-USP), se configurando como o maior poema visual impresso já feito no Brasil.
Concebido em 1997, o poema se multiplicou ao longo dos anos em diversos suportes: pequenos adesivos, pintura sobre tela, caixas de fósforo, placas de metal, copos, camisetas, faixa de plástico presa a avião e instalações de grande porte . Na galeria teremos a exposição de seis novos objetos feitos especialmente para a instalação do MAC.
Similar ao conceito de grafitti, o trabalho não deixou o espaço público e não abandonou características da aparição anônima. "VOC? ESTÁ AQUI é um poema Zen. Um poema que chama o espectador para a reflexão daquele momento presente. Ele propõe que experimentemos a realidade direta, aqui e agora", comenta o artista Tadeu Jungle, que também passa a assumir a curadoria do projeto de ocupação da fachada da Zipper.