Sabor residual, efeito que remanesce ao consumo, aquilo que se mantém sendo já outro: o retrogosto sugere percepções a um só tempo novas e recordativas, originais mas retroversas à substância de que são tributárias. Sensações capazes de remeter a uma ou várias referências – o aftertaste do vinho, especiaria, aspirina, alucinógeno –, sem com elas, porém, se confundirem. O caráter híbrido dessa faculdade gustativa, tão específica quanto evocatória, empresta nome à individual de João GG, indiciando o deslocamento de sentidos e desfamiliarização de signos, o gosto retrô, que perpassam as investigações e trabalhos recentes do artista.
Retrogosto apresenta trabalhos em diferentes linguagens e suportes que exploram e tencionam elementos antagônicos, conciliando tratamentos erosivos dos materiais com procedimentos de esmero detalhista e obsessivo do artista. São blocos de gesso pigmentados à maneira clássica do afresco – que pareceriam ruinosamente de outrora, não fossem expressamente novos (série CAPVT, 2018-2019); esculturas totêmicas de isopor, material sintético e industrial, esculpido à feição de estruturas minerais renderizadas que ecoam altares sem deuses (Altar em bump-mapping, 2019); uma lua – pedra que flutua, espelho de luz solar no espaço – retida como pura superfície, em arranjo de formas geométricas básicas, mas levemente irregulares (Bala de prata, 2017); representação vívida e luzidia do Vesúvio (Magica, 2019), cuja topografia delineada em traços finos e longos contrasta o efeito explosivo da irrupção em linhas curtas, profusas, rebolidas, milimetricamente caóticas.
Um arranjo assimétrico de fotografias dá tom a essa natureza despistadora dos trabalhos reunidos na exposição. Trata-se de imagens de cenas ermas capturadas em cidades e vias públicas superpovoadas, como Tóquio e São Paulo; um remoto cemitério xintoísta que faz as vezes de paisagens pós-industriais; flagrantes de inestéticas paisagens cenográficas que emulam outras paisagens; tomadas de detalhes arquitetônicos de uma Kyoto noturna, habitada tão-somente por diferentes situações de luz; templos e objetos religiosos dessignificados ao que suas formas, cores e disposição no espaço podem enunciar.
A ambientação minuciosa, criada pelas relações que os objetos vazam e entretecem conformando o espaço, é processo caro aos trabalhos de João GG, nos quais a produção deliberada de rachaduras, desgastes e ranhuras (Wicked Game, 2019) se equaciona a superfícies resinadas e experimentações enérgicas de iluminação. Excertos descontínuos de sons potencialmente familiares, mas de improvável reconhecimento, reforçam a criação de um ambiente ficcional, ainda que referenciado em origens retraçáveis, num forte flerte com a estética do vitrinismo e a linguagem publicitária.
Rugosidade e lisura, figura e fundo, verticais e horizontais, calor e frio, justaposição de texturas e cores, entre outros pares de opostos complementares, fazem emergir desses objetos de João GG efeitos dramáticos e sensoriais. Como se os polos, aproximados, esboçassem definir todas as possibilidades de matizes intermediários e gostos retroativos da matéria.
Hélio Menezes










Em Retrogosto, exposição individual de João GG no projeto Zip’Up, cada trabalho é tão ostensivamente novo quanto opera um déjà vu: fotografias de paisagens que se parecem com outras paisagens; objetos novos que remetem a ruínas; elementos arquitetônicos modernos que evocam coisas antigas; isopor com aspecto mineral; uma trilha sonora fragmentada que deixa intuir uma possível familiaridade. Os objetos remetem a diversas referências mas não são exatamente nenhuma delas, são híbridos ou, nas palavras do artista, há "memórias residuais" impregnadas nos objetos e fotografias, e por eles conjuradas. Com curadoria de Hélio Menezes, Retrogosto abre no dia 06 de agosto e fica em cartaz até o dia 31.
A individual parte de dois processos centrais no trabalho de João GG: ambientação e deslocamento de sentidos. A ambientação é pensada pelo artista a partir das relações que os objetos expostos mantém entre si, e de como este convívio produz o ambiente. O deslocamento é um procedimento presente na produção do artista, que trabalha plasticamente um símbolo ou uma imagem altamente codificada até o limite de sua reconhecibilidade, ponto em que o objeto passa a ser apreendido naquilo que sua matéria e cor dão conta de reter. “Rugosidade e lisura, figura e fundo, verticais e horizontais, calor e frio, justaposição de texturas e cores, entre outros pares de opostos complementares, fazem emergir dos objetos de João GG efeitos dramáticos e sensoriais, como se os polos esboçassem definir todas as possibilidades de matizes intermediários”, afirma Hélio Menezes.
Há nas formas criadas pelo artista um interesse pela representação da paisagem. As esculturas em isopor, ainda que lembrem formas virtuais renderizadas, mantém aspectos rochosos, que sofreram desgaste por alguma força exógena. As formas se relacionam, também, com uma estética da cultura de consumo, da linguagem publicitária e do vitrinismo. “Ficção e hibridismo são elementos importantes do trabalho, já que o resultado final dele costuma ser uma associação de três ou quatro referenciais distintos”, conta João GG. Nesta direção, o trabalho Altar em bump-mapping (2019) é uma pista para o conjunto da exposição: duas formas escultórias quase simétricas remetem a um altar, embora não venerem divindade alguma.
“A noção de retrogosto, ou aftertaste, é sempre algo sensorialmente específico, mas impossível de definir sem que a substância da qual ele procede seja evocada, mesmo que seu gosto seja diferente, como por exemplo o gosto residual de aspirina ou do vinho”, conta João GG.
Idealizado em 2011, um ano após a criação da Zipper Galeria, o programa Zip’Up é um projeto experimental voltado para receber novos artistas, nomes emergentes não representados por galerias paulistanas. O objetivo é manter a abertura a variadas investigações e abordagens, além de possibilitar a troca de experiência entre artistas, curadores independentes e o público, dando visibilidade a talentos em iminência ou amadurecimento. Em um processo permanente, a Zipper recebe, seleciona, orienta e sedia projetos expositivos, que, ao longo dos últimos oito anos, somam mais de cinquenta exposições e cerca de 70 artistas e 30 curadores que ocuparam a sala superior da galeria.
Sobre o artista
João GG (Porto Alegre, 1986) produz esculturas e instalações em que iluminação e ambientação são elementos centrais. Os trabalhos são frequentemente construídos com materiais cênicos e/ou sintéticos (isopor, lâmpadas de LED, resina, poliuretano, látex) e estabelecem diálogo com representação de paisagem, ficção, cenografia, vitrinismo, fotografia de estúdio e, de forma mais ampla, com a noção de artifício. Diversos trabalhos partem de imagens altamente codificadas para dessignificá-las ou hibridizá-las. O artista vive e trabalha em São Paulo. Entre suas principais exposições estão: Dear Amazon - BRAZIL X KOREA The Anthropocene, Ilmin Museum of Art, Seul (2019); Inauguração Oficial da Represa do Pacaembu, Casa Alagada, São Paulo (2019); O Aparato, Paço das Artes no MIS, São Paulo (2018); Philiosofreak, Casa de Cultura Mario Quintana, Porto Alegre (2018); AI-5 50 anos, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo (2018).
Sobre o curador
Hélio Menezes é antropólogo, atua como pesquisador, crítico e curador. Graduado em Relações Internacionais e em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, onde tornou-se mestre e doutorando em Antropologia Social. Vem desenvolvendo pesquisas sobre arte e política, com foco em teoria antropológica da imagem. Foi coordenador internacional do Fórum Social Mundial de Belém (Brasil, 2009), Dacar (Senegal, 2011) e Túnis (Tunísia, 2013). É Curador de Literatura do Centro Cultural São Paulo, curador do Museu de Arte Osório César e foi um dos curadores da exposição Histórias Afro-Atlânticas (MASP e Instituto Tomie Othake, 2018) e da mostra de performances Eu não sou uma mulher? (ITO, 2018).