A África moderna está vivendo a compressão do tempo como nenhum outro continente. Mal completou 50 anos e é apenas um pouco mais velha do que a média de sua população atual. Ao mesmo tempo, ainda não se abriu completamente à industrialização.
Nos centros urbanos percebe-se um vigoroso aumento da produção artística em anos recentes. O último continente onde isso vem acontecendo, a África também passou a estar presente na cena artística global, com todas as vantagens e desvantagens que isso acarreta. Artistas africanos se apresentam regularmente nas grandes exposições internacionais, seja na Documenta, em Veneza, e até mesmo nas Bienais da Ásia e América do Sul. Muitos artistas africanos de renome vivem nas metrópoles da Europa e dos Estados Unidos, mas continuam se inspirando em temas de seu continente de origem, embora estejam pouco presentes por lá.
Ao mesmo tempo, foram fundadas diversas bienais na África, entre elas a de Dacar, de Joanesburgo, de Marraquexe, de Bamaco, do Cairo, de Campala, de Luanda, de São Tomé e Príncipe e também Lubumbashi na República do Congo. A essas, somam-se diversos salões de arte contemporânea e feiras de arte que acontecem em quase todos os países mais importantes da região.
Desse modo, a arte contemporânea africana deu as costas a dois preconceitos longamente estabelecidos; de um lado, o estigma do artesanato e da "arte de aeroporto" e, de outro, as referências etnológicas.
Como em toda parte, também na África a arte contemporânea encontra-se em um permanente processo de renovação criativa. Ainda que não possam ser ignorados os efeitos do colonialismo, não deve ser subestimada a importância do intercâmbio artístico verificado na passagem do período colonial ao pós-colonial e, nesse contexto, a reação dos artistas em relação ao período que antecedeu a independência.
Não causará surpresa que um continente com as dimensões da África tenha produzido uma enormidade de arquivos artísticos com raízes em pelo menos três legados: a cultura nativa, o cristianismo e o islamismo, que, como mostra o exemplo da Nigéria, convivem em um espaço bastante reduzido. Os países do Golfo da Guiné abrigam não apenas mil diferentes grupos étnicos e idiomas, como também incluem elementos anglófonos, francófonos, lusófonos, hispânicos e árabes.
Entre o Senegal e a África do Sul, o Sudão e Angola, a identidade africana moderna é marcada por uma diversidade de encontros culturais e interações, por processos de intercâmbio e aculturações. Se, inicialmente, esses processos diziam respeito à Europa e à América, hoje em dia, e acompanhando a globalização, também se estendem a outras partes do mundo. Logo, a arte africana movimenta-se na zona de tensão entre diversos arquivos: tradicionais e modernos, coloniais e pós-coloniais, locais e globais, cosmopolitas e aqueles influenciados pela diáspora.
Em contraste com a arte ocidental, inserida ou até quase engessada, em uma sequência estrita de tendências estilísticas, a arte contemporânea africana tem a vantagem de não precisar atender a nenhum cânone e poder orientar-se unicamente pelo aqui e agora. Para tanto, lança mão dos materiais disponíveis a cada momento, permeando todos os meios da arte.
Alfons Hug
As obras expostas fizeram parte da mostra Ex Africa no CCBB.
O curador Alfons Hug traz à Zipper uma seleção de trabalhos que estiveram no maior panorama da arte contemporânea africana já exibido no país, a coletiva Ex Africa, que itinerou pelas sedes do CCBB durante 2018. Com trabalhos de J. D. 'Okhai Ojeikere (Nigéria, 1930-2014), Leonce Raphael Agbodjelou (Benin, 1965), Nástio Mosquito (Angola, 1981) e Karo Akpokiere (Nigéria, 1981), a mostra África revisitada, aberta a partir de 6 de novembro na galeria, reúne um pequeno vislumbre de um universo imenso e ainda muito inexplorado pelo público no país.
“A identidade africana moderna é marcada por uma diversidade de encontros culturais e interações, por processos de intercâmbio e aculturações. Se, inicialmente, esses processos diziam respeito à Europa e à América, hoje em dia, e acompanhando a globalização, também se estendem a outras partes do mundo. Logo, a arte africana movimenta-se na zona de tensão entre diversos arquivos: tradicionais e modernos, coloniais e pós-coloniais, locais e globais, cosmopolitas e aqueles influenciados pela diáspora”, afirma o curador que, desde a década de 1980, vem curando exposições de artistas do continente africano.
A coletiva na galeria busca as relações entre os trabalhos de quatro artistas de três países da África. Do nigeriano J. D. 'Okhai Ojeikere, a mostra reúne a destacada série de fotografias de penteados femininos que refletem a revolução da estética ocorrida após o processo de independência daquele país nos anos 1960. Ainda no terreno da fotografia, a série Code Noir do artista Leonce Raphael Agbodjelou, de Benin, retrata integrantes da comunidade de Porto-Novo, sua cidade natal desenvolvida originalmente a partir de um porto português para venda de escravos. Agbodjelou faz uma narrativa visual da África e de seu processo de colonização, em locações cuidadosamente selecionadas, em busca de registros de um passado esquecido.
Já os desenhos do nigeriano Karo Akpokiere fazem referência à cultura da cidade de Lagos, em uma linguagem visual que remete ao design gráfico e à publicidade presentes naquele ambiente urbano. A mistura de palavras e imagens oferece uma leitura panorâmica dos contextos social, político e religioso predominantes na cidade onde o artista vive e trabalha. Por fim, o vídeo Hilário (2016), do angolano Nástio Mosquito, completa o conjunto de trabalhos da coletiva. A vídeo instalação ocupa a sala expositiva do andar superior da galeria. Multifacetado, o trabalho cria linguagens híbridas que percorrem os universos da música, poesia e artes visuais.
“A arte contemporânea africana deu as costas a dois preconceitos longamente estabelecidos: de um lado, o estigma do artesanato e da ‘arte de aeroporto’ e, de outro, as referências etnológicas. Como em toda parte, também na África a arte encontra-se em um permanente processo de renovação criativa”, afirma o curador.
A coletiva África revisitada fica em cartaz até 12 de janeiro de 2019.
Sobre o curador
Alfons Hug (Hochdorf, Alemanha, 1950) é curador e crítico de arte. Foi diretor do Instituto Goethe, em Lagos (Nigéria), Medellín (Colômbia), Caracas (Venezuela), Moscou (Rússia) e Brasília (Brasil). Radicado no Brasil, desenvolve projetos no país desde 1992. Possui longa trajetória como curador de bienais: Bienal de São Paulo (2002 e 2004); Pavilhão brasileiro na Bienal de Veneza (2003 e 2005), Bienal do Mercosul (2018); Representação brasileira da Bienal de Cuenca (2004); Bienal do Fim do Mundo (Ushuaia) (2009); Bienal de Curitiba (2011); Pavilhão latino-americano da Bienal de Veneza (2011, 2013 e 2015); Bienal de Montevideo (2012, 2014 e 2016). De 2002 a 2015, dirigiu o Instituto Goethe do Rio de Janeiro.