Desmedida, aqui materializada, é um prelúdio expositivo das mais diversas ruminações e elucubrações; viagens e prospecções; documentos e imagens; ressignificações e estratégias artísticas para um imaginário exorbitante e contemporâneo de Brasil – ainda em aberto, fissurado e em permanente construção. É latente a vontade de se descortinar paisagem e território demasiadamente complexos, congenitamente incompletos e diversos, mas efetivamente transformados para além daquele projeto unificado de civilização brasileira do século XX.
Nessas paisagens, descobre-se então um Brasil que se faz hoje, abordando desde as feridas não cicatrizadas do passado à complexidade de realidades desconhecidas ao olhar citadino. Ou melhor, realidades que não são vivenciadas e consideradas pelo proselitismo político de uma profunda crise que por hora nos domina nos espaços urbanos de visibilidade aos quais estamos expostos e para os quais atuamos. Sim, somos um país eminentemente urbano, mas pouco conciliado com a imensidão de sua terra, sua gente e seus lastros históricos e culturais. É justamente sobre aquilo que nos é invisível que aqui se põe o foco, desmedidamente, pela arte.
Desmedida é fundamentalmente um título apropriado do livro Desmedida, do escritor e cineasta Ruy Duarte de Carvalho (1941-2010). Ele – português angolano que se aventurou pelo Brasil por meio de um olhar que se fez estrangeiro – estabelece uma perspectiva poética e crítica de um percurso simbolicamente infinito que agrega um périplo entre Luanda, Angola; São Paulo, Brasil; São Francisco (o rio e as áreas lindeiras) e depois o retorno ao ponto de origem. Se é que de fato há uma origem e um fim, ou se está a lidar com um permanente deslocamento sinuoso e circular ao qual estamos condicionados.
Se da literatura partiu-se de uma crônica e relato poético de um estrangeiro – aliás, fato já recorrente em nossa história desde os primeiros viajantes, cientistas e artistas –, da visualidade, poética e documental tem-se como marco temporal e estético o longametragem de ficção Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009), de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes. Ao mesmo tempo em que um é crônica e história de um permanente deslocamento de descoberta pelo lugar geográfico do Rio São Francisco e das áreas contíguas, o outro é filme que resignifica a paisagem plástica brasileira, tendo como fio condutor a narrativa de um personagem em um movimento de encontro consigo mesmo nesse território dos sertões de hoje. Entretanto, os dois atuam também com os seus papéis invertidos. Essa dualidade, aliada ao confronto permanente entre o íntimo e o universal, o micro e o macro, a abundância e a escassez, o solar e a escuridão, o desenvolvimento e o abandono, a construção e a ruína, parece ser a tônica dessas apreensões da realidade sensível, na contramão da história oficial, heróica e positivista.
Desmedida, de fato, é sintoma comum em diversas iniciativas da arte contemporânea do Brasil que, desde os fins dos anos 2000, transbordam essa condição dual sempre confrontada. Das mais notáveis, são contempladas as produções de André Penteado (São Paulo, 1970), Daniel Frota (Rio de Janeiro, 1988), Haroldo Saboia (Fortaleza, 1985), João Castilho (Belo Horizonte, 1978), Karim Aïnouz (Fortaleza, 1966) e Marcelo Gomes (Recife, 1963), Regina Parra (São Paulo, 1981), Romy Pocztaruk (Porto Alegre, 1983) e Tuca Vieira (São Paulo, 1974); todas elas partem de uma investida inicial do que simbolicamente nos está a oeste, ora invisíveis ora escamoteados, mas em continua circularidade.
São trabalhos que ilustram e problematizam realidades e ficções à luz de um imaginário construído nas duas últimas décadas do século XXI. Cada artista, ao seu modo, enseja um gênero de movimento ou transitoriedade: da mata atlântica exuberante e em extinção ao cosmos do sertão e sua multiplicidade; das migrações atuais em busca de sobrevivência e trabalho às aventuras transitórias de redescoberta, vivência e encantamento; da ruína transamazônica à transposição do rio São Francisco; da missão francesa civilizatória, cultural e científica à globalização desenvolvimentista e cultural.
Por hora, instados ao desequilíbrio e à desconstrução de certezas históricas, convoca-se o visitante a esse prelúdio, um ensaio à vastidão e ao abismo de tudo o que não se conhece, mantendo em consciência a idéia de que “o melhor o tempo esconde, longe muito longe, mas bem dentro aqui”.2
Diego Matos
1 CARVALHO, Ruy Duarte de. Desmedida: Luanda, São Paulo, São Francisco e Volta. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2010. p. 67.
2 Versos iniciais de Trilhos Urbanos, canção de Caetano Veloso.
Na exposição coletiva Desmedida, prelúdio de uma pesquisa curatorial mais ampla desenvolvida na última década, o curador Diego Matos reúne um conjunto de trabalhos que retratam o Brasil, seu lastro histórico e suas múltiplas realidades à luz de um imaginário construído nas duas últimas décadas do século XXI. Na contramão aos parâmetros de uma história oficial baseada nas ideias grandiosas de progresso e civilização e na atenção ao desenvolvimento das grandes metrópoles, as investidas dos artistas aqui selecionados conflagram largo interesse em explorar, reconhecer territórios grandiosos mas invisíveis. Trata-se desse mesmo Brasil que, no momento, seja por temor, ignorância ou elitismo, é dado as costas.
Em busca de narrativas que refletem sobre outros entendimentos do que seria o chamado “Brasil profundo”, "o grande sertão", a dimensão da floresta ou a errônea percepção da natureza "selvagem", a seleção contempla produções de André Penteado (São Paulo, 1970), Daniel Frota (Rio de Janeiro, 1988), Haroldo Sabóia (Fortaleza, 1985), João Castilho (Belo Horizonte, 1978), Marcelo Gomes (Recife, 1963), Karim Aïnouz (Fortaleza, 1966), Regina Parra (São Paulo, 1981), Romy Pocztaruk (Porto Alegre, 1983) e Tuca Vieira (São Paulo, 1974). “Muitas destas pesquisa encontram nas profundezas do interior, deste íntimo do país, alguma condição universal, um sentimento comum demasiadamente humano. O interesse é este: confrontar o íntimo e o universal, o micro e o macro, confundindo escalas”, afirma.
O título da exposição é tomado emprestado do livro Desmedida, do escritor angolano Ruy Duarte de Carvalho. Trata-se de um relato poético de viajante quando de sua prospecção pelo Brasil, a partir de excursão pela bacia do Rio São Francisco. “Vários artistas estabelecem relações poéticas e visuais semelhantes ao escritos de Ruy. Há uma geração de artistas trabalhando com a ideia de redescobrimento. O interior do país passou por transformação sócio econômica radical nos últimos 20 anos”, afirma o curador.
De Tuca Vieira, a série fotográfica Viagem ao Brasil (2013) faz um retrato deste novo habitus construído sob a égide do desenvolvimento econômico e que se sobrepõe aos discursos globalizantes e homogeneizadores. Dois vídeos de Haroldo Sabóia – Carta à Solidão (2016) e Na medida em que caminho (2017) – fazem uma espécie relato poético sobre paisagens interioranas do Nordeste do país. Também o faz o vídeo Sertão de Acrílico Azul Piscina (2004), da dupla Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, com tom documental e prospectivo, mas de caráter eminentemente experimental e poético. É por ele que a própria narrativa expositiva começa. O último vídeo da coletiva, Barca Aberta (2016), de João Castilho, reflete sobre deslocamentos de trabalhadores no interior mineiro, perpetuando a idéia permanente de movimento enquanto forma de sobrevivência.
De André Penteado, fotografias da série Missão Francesa (2017) desvendam o processo civilizatório e cultural de “catequizar” o Brasil a partir de referências ocidentais. Talvez seja esse contexto registrado que demarca a primeira ação de caráter simbólico no país, na construção de uma modernidade forjada. E, de Romy Pocztaruk, trabalhos da série A Última Aventura (2014) investigam os vestígios materiais e simbólicos remanescentes da construção da rodovia Transamazônica, um projeto faraônico, utópico e ufanista, relegado ao abandono e esquecimento. Regina Parra é a única artista a apresentar uma pintura da mostra. Um Perigo e uma Chance (2017), pintura de escala monumental, vem de uma pesquisa da artista que reflete sobre temas como imigração, iminências de transformação e condições inóspitas, colocando o espectador em real situação de desequilíbrio. Por fim, Daniel Frota, com sua peça sonora It’s a Perpetual Way, investindo na natureza circular e mântrica da musica popular brasileira, manipula a canção de Caetano Veloso, It’s a Long Way, de 1972, abrindo alas aos que chegam à galeria, o que põe em contato o público e o privado.
A coletiva Desmedida abre no dia 17 de maio e fica em cartaz até 16 de junho.
Sobre o curador
Diego Matos (Fortaleza, Brasil, 1979) é pesquisador e curador; mestre (2009) e doutor (2014) pela FAU-USP. Foi um dos curadores do 20o Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil (Sesc Pompéia, 2017). É organizador, com Guilherme Wisnik, do livro Cildo: estudos, espaços, tempo (Ubu Editora, 2017). Foi assistente de curadoria da 29ª Bienal de São Paulo (2010); membro do Núcleo de Pesquisa e Curadoria do Instituto Tomie Ohtake (2011 – 2013); curador assistente do 18º Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil (2013); e curador das exposições Da Próxima Vez Eu Fazia Tudo Diferente (Pivô, 2012) e Quem nasce pra aventura não toma outro rumo (Paço das Artes, 19º Videobrasil), todos em São Paulo, entre outras. Foi coordenador de Acervo e Pesquisa da Associação Cultural Videobrasil (2014-2016). Foi curador de exposições individuais de artistas como: Michel Zózimo, Rafael Pagatini, Raquel Garbelotti, Yiftah Peled, entre outros. Atuou também como professor em centros de ensino de arte e arquitetura em São Paulo (Instituto Tomie Ohtake, Escola São Paulo, Centro de Pesquisa e Formação e outras unidades do Sesc São Paulo). Ademais, escreve textos para catálogos de exposições; livros e exposições de artistas e colabora com revistas acadêmicas e de arte.