Foram para o norte para chegar ao sul. Afirmação que refuta qualquer certeza construída durante séculos sobre os modos de controle de espaços e territórios. Seria possível o sul estar ao norte também? Ou seria impossível chegar lá?
Entre apurados movimentos em prol de desejos não realizados se desprendem os gestos de uma sociedade em tensão - compreensível, como a caracteriza Graciela Sacco - que levanta seus braços, abre suas bocas, corre e gesticula na tentativa de chamar atenção para suas queixas.
Sacco nos coloca em um presente contínuo, diante de situações que marcam uma condição humana assinalada por conflitos, lutas, trânsitos, migrações, exílios.
Diante da contundência do real, elege o evanescente. Suas imagens se inscrevem com luz (são assim suas heliografias sobre distintos objetos), se fazem presentes por transparência ou se desvanecem sob a luz do sol; mudam, fugazes, com a dinâmica do cotidiano, a cada passo interpelam o espectador instalando uma pergunta e com ela uma situação de reflexão.
Diana Wechsler
Um dos principais nomes da produção argentina contemporânea, Graciela Sacco (1956) realiza na Zipper sua primeira exposição individual no Brasil. Aberta a partir do dia 22 de agosto, a mostra Foram ao Norte para chegar ao Sul reúne instalações, vídeos, fotografias e objetos da artista, que é reconhecida por desenvolver técnicas inovadoras de impressão fotossensíveis, rompendo com suportes tradicionais. Com curadoria de Diana Wechsler, professora da Universidad de Buenos Aires, a exposição fica em cartaz até 30 de setembro.
Foram ao Norte para chegar ao Sul é também título de série recente da artista, que, de certa maneira, condensa os temas alvo da exposição: a relação entre memória e fotografia e entre arte e sociedade, deslocamentos, migrações, exílios e a diáspora contemporânea.
A última vez que Graciela Sacco apresentou um corpo expressivo de trabalhos no país foi em 1996, durante 23ª Bienal de São Paulo, da qual participou como representante argentina. A artista acumula, ainda, diversas outras participações em bienais internacionais de arte: Ushuaia (2009), Shanghai (2004), Veneza (2001), Havana (1997 e 2000) e do Mercosul, 1997. Neste ano, Graciela participa, ainda, da Bienal Internacional de Arte Contemporânea da América do Sul (Bienalsur) com a intervenção urbana ¿Quién fue?.
Influenciado pelo conceitualismo latino-americano dos anos 1960, seu trabalho tem forte implicação política e se expressa, frequentemente, na evidenciação de conflitos e tensões, sejam sociais, políticos, econômicos, entre sujeito e objeto, luz e sombra, espaço e suporte. Na individual, Graciela faz, ainda, um panorama de sua produção, com trabalhos da década de 1990 – como os da série Bocanada (1994), apresentados na Bienal de São Paulo de 1996 –, do inícios dos anos 2000 e algumas mais recentes, produzidas após 2010.
Sobre a curadora
Curadora, pesquisadora e doutora em História da Arte, Diana Beatriz Wechsler (1961) é professora titular da Universidad de Buenos Aires (UBA). Dirigiu exposições e projetos na Argentina, Itália, Brasil, México, Espanha e Alemanha. Principais publicações: Entre tiempos…Presencias de la Colección Jozami en la Lázaro Galdiano (2014); Pensar con imágenes (2012), Imágenes y historias (2011), Realidad y utopía, Realidad y Utopía (Berlín 2010); Gorriarena, Itinerarios (2007), Territorios de diálogo (México, 2006); Los surrealistas (2005). Prêmios: AICA-ABCA (2003); Cámara de Diputados de la Nación (2004); AICA-AACA (2007).