Rachaduras
Os pintores devem saber que com suas linhas circunscrevem as superfícies. Quando enchem de cores os lugares circunscritos, nada mais procuram que representar nessa superfície as formas das coisas vistas, como se essa superfície fosse de vidro translúcido e atravessasse a pirâmide visual a uma certa distância, com determinadas luzes e determinada posição de centro no espaço e nos seus lugares. (Leon Battista Alberti, Da pintura, 1435)
A partir deste trecho, diversos teóricos, historiadores e críticos de arte pensaram a metáfora da pintura como janela para o mundo. Ao observar com calma as pinturas reunidas para a exposição Jardim Cético, de Rodrigo Cunha, estas teorias de Alberti vieram à lembrança. Quinhentos anos separam os dois, sem falar na distância geográfica entre Florença e Florianópolis, mas enxergo um diálogo por meio da indicação do autor a respeito do "vidro translúcido" que as boas pinturas deveriam emular. Seria possível enxergar essa construção cênica, tal qual um teatro de palco italiano, nas imagens de Rodrigo Cunha?
Em primeiro lugar, chama a atenção neste ciclo pictórico do artista a presença do corpo humano. Estes anônimos se encontram, quase sempre, solitários dentro de espaços fechados que parecem ser seus recantos de privacidade - feitos seja para o trabalho, seja para chamar de lar. Suas anatomias, mesmo que rapidamente reconhecidas como cabeças, troncos e membros, possuem alguma rachadura no seu espelho do real; deveríamos naturalizar esta sequência de bochechas rosadas e olhares lacônicos? Tratar-se-ia de uma família que habita a mesma residência? Nesse sentido, aliás, vale a pena estranhar também a semelhança entre as texturas das paredes, os tacos de madeira no chão e os contornos dos rodapés.
Em duas destas composições, um pequeno cão se faz presente com a mesma postura física, mostrando a língua. Certamente ela não estará cheia de saliva; as figuras de Rodrigo Cunha se assemelham mais à minuciosidade necessária de um escultor em cera. Em lugar das pinceladas expressivas, coloristas e que por muitas vezes habitam um senso comum do que seria a "pintura brasileira contemporânea" (em especial no que diz respeito à presentificação do corpo humano), este pintor trava uma batalha igualmente complexa, mas dentro dos detalhes. Ao optar por não se utilizar de desenhos prévios, recorrendo a um banco de imagens que organiza mentalmente como um caderno de esboços, o artista pouco a pouco afia seus pincéis no campo do milimétrico.
Por meio do ceticismo que dá o tom nas cenas compostas por Rodrigo, vemos essas imagens com menor ou nenhuma transcendência. Uma xícara de café, um fruto fatiado e um monociclo, entre outros objetos, me parecem mais próximos de instrumentos de composição cênica de uma peculiar domesticidade do que de pretensões imediatas à alegoria. A janela de Alberti aos poucos começa a embaçar e a movimentação dos personagens pintados nesses palcos sobre tela é nula.
Esta possibilidade de interpretação não impede, mesmo assim, que nosso olhar bata e volte em alguns destes apetrechos. O que um cajado e um ancinho fazem neste repertório visual? Eles parecem mais apropriados para os espaços representados dentro dos cômodos desses personagens; aliás, estes polígonos de paisagem são representações de pinturas dentro da pintura ou podem ser vistos como janelas dentro dos quatro cantos da janela pintada pelo artista da definição de Alberti?
Parece-me claro, enquanto isso, que estas composições advêm de uma aproximação com a tradição clássica das imagens arcádicas. Pessoas nuas vagueiam pelo verde das folhas e parecem mostrar ao espectador que, sim, diferentemente destes homens enclausurados à sua frente, é possível viver em contato direto e supostamente harmônico com a natureza, a colher frutas dos pés, banhar-se em rios cristalinos e cuidar de animais sem a utilização de hormônios. Porém, na única imagem em que a paisagem não é pano de fundo, mas domínio da extensão da pintura, a figura humana que se faz presente destoa de seus companheiros de Arcádia. Vestida, censurando sua nudez, também oferece seu olhar lânguido ao púbico e é acompanhada por fragmentos de uma construção. As ruínas desta última imagem parecem anunciar o mesmo que a célebre pintura de Nicolas Poussin na qual há um túmulo que apresenta a frase "Et in Arcadia ego", ou seja, "Na Arcádia, eu também existo". Eu, quem? A morte. Morte de quê?
Pode-se responder que estamos diante de mais uma constatação do fim de certa ideia hedonista da experiência da paisagem. Morre a imensidão da Arcádia de Virgílio, mas ainda nos restam os jardins. A partir daí, é possível afirmar também que as pinturas criadas por Rodrigo Cunha, mais do que embaçar as janelas de Alberti, deixam rachaduras em seus vidros. Na ausência do ponto de fuga único desejado por Alberti, o espectador é presenteado com a necessidade de exercitar o seu olhar e os limites de seu próprio ceticismo perante as imagens.
A próxima individual de Rodrigo Cunha, Jardim Cético, inaugura na galeria Zipper Galeria no dia 24 de março, às 19hrs. Nascido e residente em Florianópolis, o artista pesquisa a linguagem da pintura há mais de uma década e possui uma trajetória com diversas exposições individuais e coletivas. Sua pintura se destaca pela exploração de figuras humanas em pequena e média escala que habitam interiores semelhantes a residências permeados por objetos que contribuem com um tom por vezes misterioso às narrativas visuais.
Para essa mais nova exposição, o artista apresentará uma nova série de trabalhos que nasceram da tensão entre essa presença humana comentada em suas imagens e paisagens idílicas. Trata-se de um jogo entre essa dicotomia entre cotidiano habitado pelo homem e a natureza que serve como fundo, cenário ou mesmo janela de algumas de suas obras. O que esta entrada da paisagem campestre (por muitas vezes próxima à idéia de Arcádia) por trazer em termos de pintura para sua produção?
Para refletir sobre essa inquietude, o artista tem se dedicado à uma pesquisa iconográfica sobre a inserção de temas bucólicos na pintura ocidental, com destaque para as tradicionais reuniões de pequenos grupos humanos a descansar sobre a relva. Corpos nus, livres em um espaço predominantemente natural, reforçam o propósito da busca pela liberdade e até de uma certa licenciosidade carnal. Por fim, também contrastam com o caráter aparentemente urbano dos corpos que se deparam com essas paisagens e com o próprio percurso de Rodrigo Cunha.
Entre cidade e campo, urbe e rural, contemporâneo e tradicional, o artista compartilha com o público algumas possibilidades de jardins céticos da sua pureza, mas potentes no que diz respeito à sua circunscrição e recodificação de elementos visuais da história da arte.
Sobre o curador
Raphael Fonseca vive e trabalha no Rio de Janeiro. Trabalha como crítico, curador e historiador da arte. É doutorando em Crítica e História da Arte (UERJ), professor do Colégio Pedro II e escreve periodicamente para a revista ArtNexus. Trabalha como curador de exposições e mostras de cinema com destaque para Derek Jarman - cinema é liberdade (Caixa Cultural Recife, 2014); Água mole, pedra dura (I Bienal do Barro, Caruaru, PE, 2014); Deslize <surfe skate> (Museu de Arte do Rio, 2014); A lua no bolso (Largo das Artes, RJ, 2013) e City as a process (Ural Industrial Biennial, Ekaterinburgo, Rússia, 2012). Atualmente atua como curador-assistente da 10a edição da Bienal do Mercosul, a ser realizada em Porto Alegre, em 2015. Organiza sua produção crítica e curatorial no blog Gabinete de Jerônimo (http://gabinetedejeronimo.blogspot.com).