Pedro sonha a paisagem como um mosaico orgânico, fluído, exuberante em flores e frutos exóticos. Polpa carnuda em pele de imagem. Sujeito coletivo fabulado na vegetação mimetizada ao corpo indígena, negro, caboclo, colono. Convivência embaraçada entre os que se impõem como o senhor dos outros junto daqueles que, mesmo quando subjugados, ainda sabem ser senhores de si. Ecos do antagonismo que sempre sustentou a identidade forjada para qualificar tudo o que existisse nas novas terras encontradas pelos povos do Velho Mundo. Cativo da imaginação fértil associada à descrição taxonômica, o Paraíso Tropical foi idealizado pelo olhar estrangeiro. Sob o signo de exaltações hedonistas repletas de clichês, historicamente, a representação conferida aos habitantes da América foi elaborada para a exportação, e, com isso, tal sina foi selada à posteridade.
Fermentada num caldeirão de referências heterogêneas, a memória coletiva atrela a natureza selvagem, insólita e sedutora a personagens esdrúxulos, aventureiros ou extravagantes, frequentemente de índole moral relaxada. Em meio ao turbilhão sensorial oferecido pelos trópicos, o excesso é norma. Pleno transbordamento de vazões.
O artista se alimenta deste vasto universo iconográfico vinculado à sua realidade. Compila fragmentos simbólicos do imaginário utópico projetado sobre o seu território através dos tempos. As figuras ilustradas nas telas de Varela integram uma coleção de alusões pop-up a personagens que se esgueiram nas frestas do emaranhado formado pelo adensamento da vegetação fantástica. O procedimento da colagem de citações visuais faz conviver elementos anacrônicos, tais como: gente anônima retratada por Debret, a escrava Anastácia, um blêmia, o subcomandante Marcos, igrejinhas de Guignard, Carmen Miranda, Blue (protagonista da animação "Rio"), a caveira-símbolo do Bope, entre outros. Um verdadeiro remixicônico no qual a ficção permeia a realidade de uma tradição inventada. A montagem da cena é entrelaçada com cadência rítmica e fluidez, costurando as disparidades em uma trama agregadora ofertada para o deleite do olhar.
Manchas em transparência projetam planos que atribuem profundidade ao espaço. Figuras se aglomeram seguindo redemoinhos de adensamento pontual, como se estivessem submetidas a algum processo orgânico de espessamento. Linhas delineiam desígnios latentes a serem preenchidos. Formas brotam do vácuo naturalmente, aparentemente materializadas a partir do nada primordial. Então, aos poucos, contornos recheados ganham volume, embora a restrição cromática ao preto e branco mantenha em evidência o traçado esquemático. Desse modo, o contraste entre presença e ausência é enfatizado.
O jogo de opostos ultrapassa a dinâmica interna da obra para abarcar, também, polarizações existentes na lógica que interliga os grupos de trabalhos desenvolvidos pelo artista. Em contraponto às telas, por exemplo, há obras em papel feitas por meio de dois procedimentos básicos contrários: o recorte dos contornos do desenho para desprendê-lo do suporte, ou a perfuração da superfície de modo que a linha seja criada pelo espaço vazado. Aquilo que antes representava o cheio contra o vazio do fundo pictórico transforma-se agora em pele solta diante de um fundo maior, que é o próprio mundo fora do plano bidimensional. Ou, inversamente, produz-se situações em que as figuras são de fato o fundo exterior visto através dos cortes na superfície representacional, convertida em moldura com este gesto. Se nas telas a dualidade advém do equilíbrio rítmico entre a zona de saturação e o intervalo em branco, nos recortes de papel prevalece a tensão entre a continuidade ou ruptura do plano. Figuras transpõem o espaço físico ficcional ao se relacionarem com o ambiente tridimensional. Dentro e fora confundem-se desdobrando a imagem entre relevos e sombras. Assim, ao explorar a potência rítmica dos intervalos, Pedro Varela oferece uma qualidade quase tátil ao olhar.
Denise Gadelha
A paisagem tropical e seu imaginário construído por representações reais e fictícias a partir de um olhar para história da arte tem sido uma das questões tratadas pelo artista Pedro Varela em sua produção mais recente. Na próxima individual do artista fluminense na Zipper Galeria, que inauguramos no dia nove de junho, a mesma temática volta a aparecer, desta vez em um novo conjunto de pinturas em que ele passa a inserir também personagens reais e fictícios por entre um emaranhado de flores, plantas e caules.
Com curadoria de Denise Gadelha, a mostra irá focar em um grupo de pinturas em preto e branco feitas com tinta acrílica diluída em água, criando um efeito aquarelado que faz com que estes trabalhos estejam num lugar entre a pintura e o desenho. Ao trabalhar com uma paleta reduzida, o artista reforça um certo contraste entre a representação de um universo tropical na qual cores vibrantes costumam ser um elemento característico.
A relação entre ficção e história é outro tema também bastante presente nesses trabalhos. Personagens de diversas épocas que contribuíram para construir a ideia de uma identidade tropical se misturam aos elementos da natureza de forma difusa e por vezes pouco nítida. Entre eles, destacam-se, por exemplo, uma imagem do pintor alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858), do jornalista Vladimir Herzog enforcado, da cantora Carmem Miranda, índios antropófagos e do personagem Amigo da Onça.
"Essas figuras são quase como fantasmas dos trópicos: índios antropófagos, monstros idealizados pelos conquistadores durante a colonização, representações de divindades africanas, personagens históricos e fictícios que se misturam a essa flora e, muitas vezes, se perdem em meio ao turbilhão de referências emaranhadas. As composições surgem em formas abstratas, que podem ser entendidas como uma paisagem que deve ser acessada aos poucos pelo olhar do espectador", explica Varela.
Além das telas, o artista irá apresentar também uma instalação pictórica feita com vinil adesivo que parte das telas e se estende pelo chão da galeria.
Sobre a curadora
Denise Gadelha é mestre em Poéticas Visuais pelo Programa de Pós Graduação em Artes Visuais da UFRGS. Em 2012 cursou o programa intensivo de Art and Business no Sotheby’s Institute of Art em Londres. Atua como artista, professora e curadora. Conduziu o projeto de pesquisa que resultou na exposição Fotos contam Fatos na Galeria Vermelho em 2015. Fez a curadoria da exposição Armadilha para distender o espaço de Diego Arregui no projeto Zip’Up na Zipper Galeria, e mediou o debate O livro como estratégia artística e fotográfica realizado durante a SP-Arte/Foto 2015. Em 2014 participou da II Bienal de Fotografía de Lima apresentando a individual DúO na Galeria El Ojo Ajeno. Nesta mesma bienal foi co-curadora da exposição Brasil: voces en la multitud, Assef, De Andrade e Morais na Sala Inca Garcilaso, Lima, Peru. Em 2014 integrou a exposição MAC21 – um museu do novo século, no Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. Ainda em 2014 curou a exposição Vertigo realizada na SIM Galeria e a individual do artista espanhol Isidro Blasco intitulada Descontrução da Paisagem no MuMA, ambas em Curitiba.