A exposição apresenta obras de artistas que vêm se debruçando sobre as chamadas novas mídias e suas tangentes a partir de diversas perspectivas e interesses.
A história da arte é permeada por períodos de transição relacionados aos avanços tecnológicos de cada época. Em O conhecimento Secreto, David Hockney apresentou um corpo de habilidades desenvolvidas por artistas a partir da evolução da tecnologia de manipulação do vidro, habilidades que modificaram profundamente a pintura e as técnicas de representação. O vidro, na forma de espelhos e lentes, possibilitou o surgimento das lentes – que, por sua vez, permitiram o aprimoramento de dispositivos como a camera obscura, que já no século XIV introduzia os princípios da câmera fotográfica.
Posteriormente, a pintura impressionista foi impulsionada pelo desenvolvimento do tubo de tinta óleo, do cavalete portátil e de novos tipos de pincéis, que permitiram aos artistas sair do ateliê e experimentar novas técnicas. Naturalmente, se pensarmos na fotografia, no cinema, no rádio, na TV, no vídeo e outras mídias, é inevitável encontrarmos estadios disruptivos similares que apontariam para uma história das técnicas e tecnologias que, amplificando a capacidade sensória e analítica do corpo humano, vem modificando as formas de interpretar e representar o nosso entorno.
O corpo de trabalhos e processos apresentados em Periscópio parte da premissa de que estamos atravessando um destes períodos de transição estimulado pelas tecnologias digitais. A história demonstra que estes intervalos raramente se manifestam como rupturas repentinas e bruscas – em geral, são fruto de processos nos quais conhecimentos novos e antigos se mesclam, Neste sentido, nos estudos de arqueologia da mídia estabeleceu-se a ideia de que toda nova mídia se molda como um decalque de alguma ou diversas mídias precedentes, conquistando lentamente a sua autonomia técnica e discursiva. Poderíamos pensar, a grosso modo, que a fotografia renova e expande a pintura, o cinema a fotografia e assim por diante. Também cabe lembrar que novos repertórios técnicos e tecnológicos são uma fração do conhecimento que espelha o espírito de uma época, na qual necessariamente a linguagem – seja ela falada, escrita ou imagética – é parte fundamental do contexto. Vamos sendo alfabetizados culturalmente no percurso da história, assimilando continuamente repertórios que mediam nossa relação no mundo e que decantam com o passo do tempo. Um claro exemplo disso é a grande transformação das formas de ver e representar instaurada pela descoberta da perspectiva por Brunelleschi no século XV – técnica que se manteve hegemônica durante séculos até o aparecimento do cubismo. Este movimento, por sua vez, foi contemporâneo às descobertas da física que embalam a teoria da relatividade.
Quando falamos em “novas mídias e suas tangentes” fazemos menção a esta trama complexa onde tempo, espaço e conhecimento se entrelaçam. Nem todos os trabalhos presentes na exposição têm matriz estritamente digital, mas se constroem ou discursam de alguma maneira sob a ótica da crescente digitalização da vida. Da manipulação de bactérias a um engenho que permite controlar uma labareda de fogo com o pensamento, de reconstruções paramétricas do cristo redentor a partir de imagens encontradas na internet à deformação digital de um corpo real, Periscópio traz vídeos, esculturas, instalações e imagens em que ideias como bio arte, hacking, robótica e ferramentas como interatividade, feedback, bases de dados relacionais e algoritmos e tecnologias como impressoras e scanners 3d, cortadoras a laser e sensores, introduzem vocabulários e alimentam novos imaginários. Novas mídias modificam e expandam corpórea, semântica e gramaticalmente a linguagem em todas as suas dimensões. Em analogia ao artefato que expande o campo de visão para além do óbvio, Periscópio aposta em heterotopias a partir das quais possamos especular livremente sobre o passado, presente e futuro da arte.
Fernando Velázquez
Artistas
Anaisa Franco, Andy Lomas, Andrei Thomaz, Astrovandalistas, Bruno Vianna, Gabriel Menotti, Giselle Beiguelman, Guto Nóbrega, Fábia Karklin, Felipe Julian, Fernando Velázquez, Flora Leite e Maura Grimaldi, Henrique Roscoe, Herbert Baioco, Jaime Lobato, Julio Parente, Leandro Mendes (Vigas), Lucas Bambozzi, Marcio H Mota, Matheus Leston, Mike Pelletier, Nurit Bar-Shai, Ricardo Carioba, Richard Garet, Roberta Carvalho e Simon Fernandes.
Em Periscópio, nova exposição que a Zipper Galeria inaugura no dia nove de julho, 25 artistas de diferentes nacionalidades apresentam trabalhos que exploram as novas mídias e suas tangentes a partir de diversas perspectivas e interesses. O título faz referência ao instrumento óptico com o qual é possível enxergar além do campo de visão. De forma similar, as obras selecionadas pelo curador Fernando Velázquez sugerem uma reflexão sobre como o surgimento de novas tecnologias e seus adventos podem gerar outras formas de pensamentos além das tradicionais. Seja pela percepção sensorial, pela construção de conhecimento ou pelas relações sociais transformadas, essas novas técnicas também expandem o campo das artes visuais.
A história da arte evidencia que as mudanças trazidas com o tempo – ora na pintura, na fotografia ou no cinema, por exemplo – não devem ser vistas como uma quebra, mas como um processo mais amplo. Toda nova mídia se molda como um decalque de alguma ou diversas mídias precedentes, conquistando lentamente sua autonomia técnica e discursiva. O corpo de trabalhos e processos apresentados em Periscópio parte da premissa de que estamos atravessando um destes períodos de transição estimulado pelas tecnologias digitais.
Em diferentes linguagens, os trabalhos contemplados na coletiva atravessam o imaginário contemporâneo, estimulados pelo uso das tecnologias digitais. Entre os artistas que participam da exposição estão a israelense radicada em Nova York Nurit Bar-Shai, que estuda o sistema de comunicação de bactérias e como elas reagem em contato com variadas frequências e ondas sonoras, e a brasileira Anaisa Franco, que traz uma escultura sensitiva desafiando a imaginação pela mistura entre a robótica e a psicologia. Há também um projeto de vídeo-animação de Mike Pelletier e uma escultura de fogo controlada pelo cérebro, assinada pelo mexicano Jaime Lobato.
Artistas participantes
Anaisa Franco, Andrei Thomaz, Astrovandalistas, Gabriel Menotti, Giselle Beiguelman, Guto Nóbrega, Fábia Karklin, Felipe Julian, Fernando Velázquez, Flora Leite, Henrique Roscoe, Herbert Baioco, Julio Parente, Leandro Mendes (Vigas), Lucas Bambozzi, Marcio H Mota, Matheus Leston, Maura Grimaldi, Mike Pelletier, MuepEtmo, Mirella Brandi, Nurit Bar Shai, Ricardo Carioba, Richard Garet, Roberta Carvalho.
Sobre o curador
Fernando Velázquez é artista transdisciplinar. Suas obras incluem vídeos, instalações e objetos interativos, performances audiovisuais e imagens geradas com recursos algorítmicos. Na sua pesquisa explora a relação entre Natureza e Cultura colocando em diálogo dois tópicos principais, as capacidades perceptivas do corpo humano e a mediação da realidade por dispositivos técnicos. Se interessa pelo cruzamento da arte com outras áreas do conhecimento como a ciência, a filosofia e a antropologia visual de forma a construir processos e metodologias híbridas. Formação: Mestre em Moda, Arte e Cultura – Faculdade Senac de Moda, São Paulo; Especialização em Vídeo e Tecnologias Digitais on-line/off-line – Mecad, Barcelona, Espanha; Escola Universitária de Musica, Montevidéu, Uruguai. Principais exposições individuais: Reconhecimento de Padrões, MAC Goiás, Goiânia, 2014; Mindscapes, Zipper Galeria, São Paulo, 2012 e Mindscapes, EAC – Espaço de Arte Contemporâneo, Montevidéu-Uruguay, 2011. Principais exposições coletivas: Reinventando o Mundo, Museu da Vale, Vitória-ES, 2013; Emoção Artificial, Bienal de Arte e Tecnologia, Instituto Itaú Cultural, São Paulo, 2012; WRO Biennale, WRO Art Center, Wroclaw, Polônia; 2011; Bienal de Cerveira, Portugal, 2011 e a 7ª Bienal do Mercosul, Porto Alegre-RS, 2009. Prêmios: Bolsa Funarte de Estímulo à Criação Artística em Artes Visuais, São Paulo, 2010; 8º Prêmio Sergio Motta de Arte e Tecnologia, São Paulo, 2009; Prêmio VIDA 11.0 Artificial, Madri, 2009; Prêmio Mídias Locativas ARTE.MOV, Belo Horozonte-MG, 2009 e Prêmio 2008 Cultura, Madri, 2008.