Quase apagamento/tempo arenoso
Embora o tempo exercite invariavelmente sua dinâmica extenuante em avançar sobre infinitas coisas, lugares, paisagens, sensações, seres e recantos da alma, sempre nos iludimos pela inoperância humana em acompanhá-lo. Impregnado de sequência, frequência, ritmado pela espera da certeza cravada, o tempo se dilui pela imaginação e dá infinitas voltas na memória. Iludimos o tempo para pensarmos pelo desejo de sermos areia. De termos a natureza elegante e dual do espectador-protagonista, dono do seu próprio tempo, sem princípio nem fim.
Tempo Arenoso ecoa o gesto em tentar caminhar por imagens, um lugar e seus horizontes, apreendendo fenômenos que estavam a denunciar o interesse pela temporalidade. Este trabalho trata da paisagem como pensamento, desloca-se do tempo físico para o contemplativo, do tempo registrado pela fotografia e convertido em suspensão de memórias. Memória esta que não é do estado de lembrar-se sobre a paisagem vista, mas, contudo, da natureza maleável da experiência em fomentar o desejo de viver mais pela própria imagem fotográfica.
Num quase apagamento, Tempo Arenoso nos convida a sossegarmos o olhar e a quase fechá-los para que viajemos para dentro do nosso tempo. Certo estava Jorge Luis Borges quando dizia: “A cegueira gradual não é uma coisa trágica. É como um lento entardecer de verão”. Gosto de pensar que escapar das imagens e retomarmos a elas é uma tentativa de solapar o vazio. Seja como for, a paisagem surge quando colocamos o tempo dentro dela, quando trazemos o horizonte para dentro de nós.
Georgia Quintas/Olhavê
Entretempo, sobreposições e intervalos são algumas das chaves para compreender o trabalho apresentado pela artista Elaine Pessoa em sua primeira individual na Zipper Galeria. Com curadoria da pesquisadora e antropóloga Georgia Quintas, a mostra Tempo Arenoso reúne dez fotografias analógicas feitas na região do rio da Prata, em Montevidéu, onde a artista desenvolveu uma pesquisa entre 2013 e 2014. A série de fotografias integra o fotolivro publicado pela Olhavê, que leva o mesmo título, e foi ganhador do Prêmio Miolo(s) no ano passado, na categoria publicação de fotografia, e indicado como um dos melhores do ano na edição 2015 do PhotoEspaña.
Utilizando uma técnica de sobreposição de imagens feitas em um curto intervalo de tempo, Elaine parte deste recurso para refletir sobre um conceito de temporalidade que rompe com a medida linear. Inspirada por uma certa imobilidade melancólica deste rio, a artista também discute como essa temporalidade se relaciona com a fotografia.
“É um ensaio fotográfico que busca traduzir uma concepção do tempo anacrônico. Por meio de uma narrativa fotográfica inspirada em Henri Bergson e Mario Benedetti, Tempo Arenoso conta como as pessoas se relacionam com o rio da Prata, um rio que quase não corre, que parece mar e que talvez quisesse ser um lago. Um rio que deixa de ser rio pelo acúmulo de vivências daqueles que nele desaguam”, resume a artista.
A areia, sugerida pelo título da exposição, se mostra também quase fisicamente presente em sua série. O grão não é apenas uma representação, mas aparece como um elemento interior à fotografia, uma textura do que se vê.
A individual revela, ainda, um interesse de Elaine pelas particularidades dos detalhes, seja uma rede rasgada, uma estátua feita de concha e um fio de arame que surge no céu. Da mesma forma como as sobreposições, esses recortes criam, segundo ela, um outro olhar para o espaço, este que pode e deve ser ressignificado.
Sobre a artista
Artista plástica, pós-graduada em Fotografia pela FAAP/SP e em Administração da Produção pela Fundação Vanzolini Poli/USP-SP. Vive e trabalha em São Paulo. Participa assiduamente de salões, festivais e bienais de gravura e fotografia, dentre as quais destacam-se as mais recentes, em 2015: Photoespaña na Biblioteca Nacional de Madri, VI Edição do Diário Contemporaneo na Casa das Onze Janelas/Belem, 47o SAC – Salão de Arte contemporânea de Piracicaba, XV Bienal de Miniaturas Gráficas Luisa Palacios, e a 5ª Mostra SP de Fotografia no Espaço Revista Cult. Lançamento do foto livro Tempo Arenoso, em 2015 e participação em edições e exposições de Feiras de Livro de fotografia.
Sobre a curadora
Doutora em Antropologia pela Universidade de Salamanca (Espanha) e pós doutoranda em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP. Escritora, professora e pesquisadora no campo da teoria, filosofia e crítica da imagem fotográfica. Editora do selo Olhavê. Autora dos livros Inquietações fotográficas – Narrativas poéticas e crítica visual (2014), Abismo da carne (2014), Olhavê Entrevista (2012) e Man Ray e a Imagem da Mulher – A vanguarda do olhar e das técnicas fotográficas (2008).