Uma simples abstração?
Preto é a cor da espacialidade. Invenção de Manet, que perturbou as sensibilidades no final do século 19 com seu Almoço na Relva. O preto não era usado ali como símbolo de ausência nem como contraste para dar visibilidade maior às outras cores, mas para estabelecer distâncias. Um valor espacial, afirmou Foucault acerca da mancha negra que mistura as vestes masculinas à vegetação ao fundo no quadro do impressionista francês. Isso sem contar a transgressão das regras básicas de perspectiva e o menor foco de importância do tema. O vento predominante passa a ser, a partir de Manet (e isso na opinião tanto de Foucault quanto na de Greenberg), a objetualidade do quadro e a modernidade do pensamento estético, rumo à abstração.
Apesar da carga metafórica de suas obras (sejam ela visuais ou literárias), Victor Lema Riqué provavelmente trata mesmo de meteorologia quando menciona a direção dos ventos. Porém, é quase irresistível devolver para a obra o mesmo jogo metafórico que ela nos apresenta, assim como muitos críticos se sentem tentados a esboçar textos literários diante da obra mais narrativa do artista. Acontece apenas que VLR é tão bom escritor quanto é inquietante como artista, o que torna um tanto temerário desafiá-lo em seu próprio jogo. O que fazer se, afinal, vem a ser de fato a abstração o que a nova série de desenhos em carvão aponta, predominantemente?
Aponta também em outras direções. Uma arquitetura ficcional se insinua nessas obras, inspirada na tradição dos projetos de referências náuticas no Uruguai das décadas de 1930 e 1940, como se vê, por exemplo, no edifício do Yacht Club, em Porto de Mergulho, Montevidéu, ou no prédio El Mástil, também na capital. As formas urbanas arredondadas evocam imediatamente uma era de ouro (aqui e lá), identificada com a consolidação da modernidade e do Estado de bem-estar social. Os desenhos também tratam dos regimes de visibilidade, conferindo ênfase ao menos olhado, ao periférico ou secundário, embaralhando para esse fim a lógica da perspectiva linear clássica.
Uma combinação destas três "pistas" - a abstração, a insinuação arquitetônica e a espacialidade do olhar - é o mais indicado ao visitar a exposição A Direção do Vento Predominante 2, porque nenhuma é suficiente sem as demais. Estamos diante de um trabalho complexo, que perturba as sensibilidades deste início de século 21. Tudo o que se esconde nas zonas de sombra destes desenhos que levam o título de uma sequência cinematográfica pode vir a se revelar (ou não) na série épica em que VLR está trabalhando no momento, da qual apresenta um preview na individual na Zip'Up. Ambientada no Uruguai da primeira metade do século 19, a epopeia gira em torno Giuseppe Garibaldi, e parece conferir nova direção a um outro sistema de visibilidade.
Juliana Monachesi, 2013
No dia 18 de maio, às 14h, a Zipper Galeria abre no espaço Zip’Up a exposição A Direção do Vento Predominante II, de Victor Lema Riqué, com curadoria de Juliana Monachesi. A mostra apresenta uma série de seis desenhos em carvão sobre papel realizados entre 2012 e 2013, além de um trabalho em carvão e tinta acrílica sobre tela e um conto, chamado Alêm do Ángulo.
Na série, que dá continuidade a La Dirección del Viento Predominante I, apresentada no ano passado na Galeria del Paseo, em Punta del Este, no Uruguai, Victor sugere visitas ou momentos neutros de observação e contemplação sobre dominantes figuras arquitetônicas.
“As imagens podem levar, ou não, a um campo mais profundo de observação por meio de fugas e perspectivas que nos permitam chegar a leituras mais avançadas. Conceitos de aridez, solidão, felicidade, sendas e silêncios, estão presentes por meio de vazios metafóricos”, explica o artista.
As obras, marcadas pelo intenso contraste de preto e branco, levam a reflexões que vão além daquilo que se vê. “Depois de um primeiro plano plástico, talvez existam outras superfícies e paradoxos para investigar”, diz Victor.
Além da nova série de desenhos, Victor Lema Riqué exibe uma tela produzida em carvão e tinta acrílica, que faz parte do projeto Y Garibaldi, como Hablaba el español?, a ser exibido em 2014 no Museu de Artes Visuais de Montevidéu, Uruguai. Na exposição será ainda apresentado o conto “Alêm do Ángulo”, escrito pelo artista.
Sobre o artista
Victor Lema Riqué. Artista plástico e multimídia uruguaio. Vive e trabalha em São Paulo desde 1980. Estudou na escola de Comunicação e Arte da USP até 1984. Atualmente, trabalha de forma multidisciplinar. Tem realizado diversas mostras individuais e coletivas em países da Europa, América Latina e nos Estados Unidos. Seus vídeos performáticos têm participado de várias mostras internacionais.