O exercício da arte é, para Sheila Oliveira, um profícuo caminho para o autoconhecimento. Após trabalhar por anos sobre questões ligadas à transcendência e à memória afetiva, seu trabalho ganhou novas proposições nos últimos tempos, exibidos agora pela primeira vez em conjunto nesta exposição.
de onde emergem os nervos investiga o corpo humano, seu locus no universo, seu caráter num só tempo escultórico, dinâmico e volátil. Tal desdobramento na obra de Sheila se deu após seu interesse pelos conceitos da Eutonia - prática corporal que consiste no uso da atenção às sensações promovendo a ampliação da percepção e da consciência corporal.
A visão, o movimento, o toque, o esqueleto e a pele pulsam os ritmos internos do ser e o colocam em sintonia com o universo, como uma microestrutura compactada do cosmos. Na investigação sobre os desígnios desse corpo operante, a artista ecoou o pensamento de Merleau-Ponty, a partir do texto O olho e o espírito: “É oferecendo seu corpo ao mundo que o pintor transforma o mundo em pintura. Para compreender essas transubstanciações, é preciso reencontrar o corpo operante e atual, aquele que não é uma porção do espaço, um feixe de funções, que é um trançado de visão e de movimento.”*
Essa consciência do corpo como um entreposto de sensações próprias que findam por gerar aspectos identitários – somos o corpo que temos na mesma medida em que o transformamos a partir da consciência que temos dele – levou a artista a fazer uma instigante analogia entre o corpo humano e a câmera fotográfica. Como ela própria relata, “Experimento o que é ter meu corpo como câmara escura, num monólogo sobre o olhar de dentro, estendendo meus sentidos e apresentando a fotografia como suporte de linguagem e a linguagem do meu corpo como suporte de imagem, num sentido bruto, sem ativismos e na inocência da arte”.
Os mistérios que o corpo segreda, essas sensações de onde emergem os nervos, que só a consciência ampliada dele próprio pode desvelar, ganham nas novas investigações delicadas e inspiradoras de Sheila Oliveira um corpo correlato na materialidade possível da fotografia.
Eder Chiodetto
*O olho e o espírito, Cosac Naify, 2004, pg 16.
A artista Sheila Oliveira volta a expor na Zipper, agora com a individual De onde emergem os nervos, aberta a partir de 20 de julho. Com curadoria de Eder Chiodetto, a mostra reúne composições fotográficas que refletem sobre a sensação de estranhamento que acomete o sujeito quando este se distancia do objeto, proporcionando novos olhares e potenciais criativos. A exposição integra o projeto Zip'Up, que, desde 2011, abriga projetos experimentais e propostas curatoriais inéditas. Em 2015, Sheila havia participado da coletiva Constelações, Intermitências e Alguns Rumores, também com curadoria de Eder.
Os trabalhos da artista partem da hipótese de que a vida contemporânea mecanizada tem distanciado a consciência sobre corpo e nossas atitudes, estabelecendo uma relação automatizada. De modo que o propósito de Sheila é retomar o caminho, dissecar de onde emergem os nervos. "Acessar o corpo através da atenção às sensações, apesar de parecer primário, nos dá ricas possibilidades do ver. Estender o olhar para a pele, a boca e os ouvidos, torna-se uma experiência completa", ela sustenta.
Nestas experiências buscadas a partir da fotografia - e, muitas vezes, protagonizadas pelo próprio corpo da artista -Sheila mistura referências de seu processo de investigação, materializando sobreposições de ideias. "Por meio destas imagens sonhadas, registramos as vozes silenciosas de um corpo que, por vezes, suplica carinho, entendendo-o como obra de arte e então ouvindo sua linguagem poética através da percepção de um simples tocar e sentir de pele", reflete.
Sobre o Zip'Up
Idealizado em 2011, um ano após a criação da Zipper Galeria, o programa Zip'Up é um projeto experimental voltado para receber novos artistas, nomes emergentes ainda não representados por galerias paulistanas. O objetivo é manter a abertura a variadas investigações e abordagens, além de possibilitar a troca de experiência entre artistas, curadores independentes e o público, dando visibilidade a talentos em iminência ou amadurecimento. Em um processo permanente, a Zipper recebe, seleciona, orienta e sedia projetos expositivos, que, ao longo dos últimos seis anos, somam mais de quarenta exposições e cerca de 60 artistas e 20 curadores que ocuparam a sala superior da galeria.
Sobre a artista
Sheila Oliveira (São Paulo, 1968), graduada em Biblioteconomia e Documentação, fotografa profissionalmente desde 1995. Usa a fotografia como fio condutor para seu entendimento do mundo, muitas vezes utilizando o próprio corpo como elemento na construção de seu trabalho. Principais exposições individuais: Rastro visto de coisa só ouvida, Fauna Galeria, 2014; RAYCUERA, Espaço Cultural do Banco Central do Brasil (1996). Principais exposições coletivas: Constelações, intermitências e alguns rumores, 6º Festival de Fotografia de Tiradentes FOTO EM PAUTA, (2016); Bienal Internacional Fotográfica de Bogotá (2015); La Quatrième Image (2015). Prêmios: Prêmio Aquisição Casa do Olhar, 42º Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto (2014); Prêmio Aquisição Casa do Olhar, 39º Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto (2011). Coleções institucionais: FOTOMUSEO Bogotá (Colômbia), Fundação Cultural de Beijing (China), Casa do Olhar (Brasil), Museu UNESP (Brasil).
Sobre o curador
Eder Chiodetto é curador especializado em fotografia, com mais de 70 exposições realizadas nos últimos 10 anos no Brasil e no exterior. Mestre em Comunicação e Artes pela ECA/USP, jornalista, fotógrafo, curador independente e autor dos livros O Lugar do Escritor (Cosac Naify), Geração 00: A Nova Fotografia Brasileira (Edições Sesc), Curadoria em Fotografia: da pesquisa à exposição (Ateliê Fotô/Funarte), entre vários outros. Nos últimos anos tem realizado a organização e edição de livros de importantes fotógrafos como Luiz Braga, German Lorca, Criatiano Mascaro, Araquém Alcântara e Ana Nitzan, entre outros. É curador do Clube de Colecionadores de Fotografia do MAM-SP desde 2006.