No conto Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, Jorge Luís Borges mostra como a realidade é construída, mutável e a verdade, facilmente reinventada. Na história, um único exemplar de uma enciclopédia britânica dá condições para que se ateste a existência de um país até então sem registros. Na sequência, uma enciclopédia inteira relata crenças, ideologias, o tipo de linguagem, de literatura, o sistema de contagem e outros aspectos que formam o planeta de Tlön.
Os relatos sobre esse território fictício, entretanto, ganham possibilidade de existência quando deixam de se submeter a questionamentos por estarem registrados em um objeto que contém, em si, o poder legitimador do conhecimento, ganhando ainda mais credibilidade quando a história é disseminada pela imprensa. Os documentos, por fim, atrelaram realidade à ficção.
Da mesma maneira que os livros carregam a chancela dos saberes, a fotografia empenha-se em sustentar, desde seu surgimento, o dogma de ser prova irrefutável da verdade. A arte, por sua vez, ajudou-a a relativizar esse status e evoca-a como um lugar de criação e reinvenção.
A tensão entre o documento e a ficção está posta no trabalho apresentado pela Garapa. O coletivo formado em 2008 pelos jornalistas e fotógrafos Leo Caobeli, Paulo Fehlauer e Rodrigo Marcondes, tem como ponto de partida o factual: o acontecimento histórico, as relações entre culturas e países, o arquivo particular ou público. Embora imbuídos de contextos concretos, ultrapassam os seus sentidos originais e alcançam um território onde a dúvida impera sobre as certezas irrompidas pelas imagens e textos que compõem as obras.
Traço ainda mais marcante e reconhecível ao se olhar os trabalhos desenvolvidos pelo coletivo no ano de 2013 e postos em diálogo aqui. A Margem, Dissonante,vago, Calma e o inédito Doble Chapa são hipóteses sobre o real que se diluem entre provas reticentes, histórias imaginadas e personagens fictícios. Evidências titubeantes, irreais, mas nem por isso falsas. Capazes de provocar o interlocutor a suspeitar saudavelmente das imagens e a confiar mais na capacidade singular da ficção expressar a realidade das coisas.
Joan Fontcuberta diz que o real se funde com a ficção e que a fotografia pode "devolver o ilusório e o prodigioso às tramas do simbólico, que costumam ser finalmente as verdadeiras caldeiras onde se cozinha a interpretação de nossa experiência, isto é, a produção de realidade[1]" . Ao mesmo tempo que a objetividade fotográfica perde sua força doutrinal, vive-se um mundo que, cada vez mais, se comunica por imagens. Parece ser extremamente necessário, portanto, perguntar-nos: então, que dose de confiança depositar nelas?
Ao procurar problematizar o que se entende por construção de realidade em diferentes trabalhos, a Garapa desenha uma pequena geografia de sua criação. Elege trabalhos que sobrepõem camadas, dissecam uma temática e rompem fronteiras, de gênero e de linguagem, já que explorar a imagem em suas potencialidades é parte fundamental da pesquisa do coletivo. Momento oportuno, inclusive, para trazer a público o seu primeiro filme.
Produzido em parceria com o coletivo uruguaio Dokumental, Doble Chapa discorre sobre a vida na fronteira entre o Brasil e o Uruguai, territórios separados por uma linha política e simbólica, mas que pouco faz sentido na vida cotidiana, na formação da identidade, nas relações entre as pessoas. Uma linha insistente que tenta apartar o que não se difere.
Ao tomar emprestado o termo de Euclides da Cunha, Ficção Geográfica questiona o caráter tangível da realidade e dos documentos, dispondo-os como construções, nesse caso, artísticas.
Ágata, 2014
O espaço Zip’Up da Zipper Galeria, sala dedicada a projetos experimentais, apresenta, a partir em 18 de fevereiro, às 19h, exposição do coletivo Garapa. Com coordenação do curador Mario Gioia e curadoria do coletivo de pesquisa Ágata, a mostra Ficção Geográfica é um momento de reflexão.
Ao voltar-se para os trabalhos desenvolvidos no ano de 2013, sendo eles À Margem, Calma, Dissonante, Vago e o inédito Doble Chapa, o coletivo Garapa identificou um fio condutor que dá contorno a sua produção: a investigação da imagem que se encontra na fronteira entre o documento e a ficção, e ganha ressonância por se munir de múltiplas linguagens, como o cinema e a literatura.
Ao partir desse eixo temático, a exposição reúne obras que partiram de fatos históricos, como a Coluna Prestes, que foram resinificados ao colidirem com novos elementos e sensações, como na construção de um roteiro cinematográfico. Por fim, resta ao observador se questionar sobre a veracidade das narrativas multimídia propostas pela Garapa e a imparcialidade que as imagens parecem ter.
Sobre os artistas
Fundado em 2008 pelos jornalistas e fotógrafos Leo Caobelli, Paulo Fehlauer e Rodrigo Marcondes, o Coletivo Garapa tem como objetivo pensar e produzir narrativas visuais, integrando múltiplos formatos e linguagens, pensando a imagem e a linguagem documental como campos híbridos de atuação. Entre as exposições mais recentes, destaque para Morar, O Espaço que Guardamos em Nós (2011, Museu da Imagem e do Som); Mulheres Centrais, Geração 00 (2011, SESC Belenzinho); A Margem (2012, Centro Cultural São Paulo) e Calma, I FotoBienalMASP (2013, Museu de Arte de São Paulo). Em 2009 e 2012, venceram o Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia e, em 2011, o III Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia.
Sobre a curadoria
Formado em julho de 2012, o Ágata é um encontro de afinidades. Um coletivo multidisciplinar composto por Camila Martins, Juliana Biscalquin e Luciana Dal Ri, que identificaram na fotografia um vasto campo para a pesquisa e produção artística. Atualmente, o coletivo desenvolve uma pesquisa sobre o processo criativo de fotógrafos contemporâneos, acompanhando projetos em andamento dos mesmos. As impressões são mensalmente registradas na coluna Fissuras, publicada na revista Old, especializada em fotografia e no blog do LABMIS, residência artística, que o Coletivo Ágata integra.