O cenário dos acontecimentos é o Monte Ida, na atual Turquia, a sudeste da cidade de Tróia. Zeus se encanta com um príncipe, filho do rei da Dardânia, de nome Ganimedes e que trabalha nos rebanhos de seu pai. O rapaz é comumente representado nas artes visuais como portador de um corpo atlético, mas não exageradamente musculoso, aparentemente na virada entre a adolescência e a primeira fase adulta.
Deslumbrado com a visão pastoril desse efebo, Zeus decide tomá-lo para si por meio de uma águia - há fontes que afirmarão que o próprio deus se transforma nela e outras dirão que ele invoca o animal. Tirado da esfera familiar da Dardânia, Ganimedes é levado para a companhia de Zeus e é o novo responsável por servir vinho aos deuses. Como agrado ao rapaz e benfazejo ao seu inconsolado pai, Zeus atribui ao jovem a imortalidade. A narrativa greco-romana sobre Ganimedes pode ser interpretada como um exemplo do poder de arrebatamento de uma imagem em diversas esferas: estética, geracional, sensual e sexual.
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A presente exposição de Zé Carlos Garcia dialoga com este mito. É possível aproximar a pesquisa do artista, com uma trajetória de cerca de dez anos, à mutação entre o humano e o animal vivenciada por Zeus. As esculturas e objetos gerados por ele se encontram por diversas vezes entre o reconhecimento estrutural de móveis e anatomias animais, e o estranhamento proporcionado pela plasticidade dilacerada dos corpos estranhos que se instauram. De uma antiga cadeira de madeira saem penas de um pássaro e da trama de palha de outro móvel brota um pequeno inseto. Os fazeres artesanais e da zoologia se encontram e geram imagens que parecem em transformação perante os nossos olhos.
Para a ocupação da sala destinada ao projeto Zip'Up, o ponto de partida do trabalho foi o encontro entre o corpo humano e os limites arquitetônicos dados pelo espaço; trabalhar a partir de site specifics é algo que tem interessado cada vez mais ao artista. A imagem de uma estrutura tridimensional suspensa e composta pela variação cromática de penas pretas emergiu perante os nossos olhos. Uma vez a observar a confecção da peça, parecia difícil distanciá-la de um grande pássaro preto que, por fim, nos remeteu à história de Ganimedes.
Em vez de fugir das garras desse resquício de pássaro, desejamos que os espectadores se entreguem ao seu chamado e explorem seu movimento através de uma postura física ativa. Congelada no tempo pelas mãos de Zé Carlos, esta imagem pede uma lenta fruição de sua sensação de encarceramento, deixando incerto o seu movimento de pouso ou ascensão instaurado pela sua presença.
Convidamos o público a, mais do que se colocar ficcionalmente no lugar do jovem raptado, subverter a fonte e recodificá-la a partir de suas visões particulares da soma entre desejo e posse. Tal atitude é dialógica ao gesto do artista de deslocar o material orgânico e criar uma narrativa que pede diferentes começos, meios e fins.
Espera-se que o pássaro enviado ao Monte Ida pouse em São Paulo sendo um pouco de urubu, um pouco de pavão e outro tanto de corvo; que o fantasma da imortalidade de Ganimedes volte à sua terra-natal e que as imagens, sejam elas artísticas ou carnais, sigam a nos atiçar e nos jogar nesse lugar movediço entre a paixão e a violência.
Raphael Fonseca
A utilização de penas em estruturas tridimensionais tem sido um dos objetos de pesquisa na obra de Zé Carlos Garcia. Em sua primeira individual em São Paulo, o artista carioca dá continuidade ao trabalho com escultura plumária e apresenta uma peça de grande formato que ocupará integralmente o espaço expositivo. Com curadoria de Raphael Fonseca, vencedor do prêmio Marcantônio Vilaça de curadoria em 2015, a mostra Ganimedes abre também o calendário deste ano do Zip’Up. O programa acontece na sala superior da Zipper Galeria desde 2011 e é destinado a produções experimentais e projetos curatoriais inéditos.
A pesquisa artística de Zé Carlos se desenvolve principalmente no campo da escultura e da instalação. Suas peças contrastam o trabalho da mão humana para fins escultóricos com um caráter por vezes visceral e incontrolável da utilização de material orgânico. Para tal configuração da imagem, materiais como madeira e metais são justapostos a penas e corpos de animais. Os fazeres da marcenaria e da metalurgia caminham, portanto, juntamente com a colagem, a costura, e convidam à exploração desses corpos estranhos pelo corpo do espectador.
O título da exposição deriva das narrativas clássicas sobre a figura de Ganimedes, o belo jovem troiano por quem Zeus se apaixonou e raptou na forma de uma águia. Transformada diversas vezes em imagem na Antiguidade Clássica, e por artistas como Rembrandt e Rubens, essa narrativa ganha outro eco a partir do projeto de Zé Carlos Garcia.
A peça principal, feita com uma estrutura maleável e partes que ocuparão a sala expositiva do chão ao teto, permite que o público explore seu interior e entorno e perceba as nuances cromáticas e a sensação de peso sugerido pelo içar do trabalho no espaço. Mais do que definir uma fisicalidade para Ganimedes, deseja-se que o espectador sinta-se na pele do próprio e, confrontado por essa escultura formada por penas, reaja fisicamente a essa lembrança da águia que o envolve. Além da instalação principal, Zé Carlos exibe também sete peças menores feitas em madeira tornada.
Sobre o artista
Vive e trabalha no Rio de Janeiro. Estudou escultura na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro e frequentou a Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Dentre suas exposições individuais, destaque para Finca (Galeria Amarelonegro, Rio de Janeiro, 2015); Prumo (Memorial Meyer Filho, Florianópolis, 2014) e Jogo (Centro de Arte Hélio Oiticica, Rio de Janeiro, 2013). Destaque para as coletivas Tórrido (Espacio Odeón, Bogotá, Colômbia, 2015); Criaturas imaginárias (Museu Casa do Pontal, Rio de Janeiro, 2013); From the margin to the edge – Brazilian art and design in the 21st century (Somerset House, Londres, Inglaterra, 2012) e Nova escultura brasileira – herança e diversidades (Caixa Cultural Rio de Janeiro, 2011).
Sobre o curador
Vive e trabalha no Rio de Janeiro. Trabalha como crítico, curador e historiador da arte. Doutorando em Crítica e História da Arte (UERJ). Professor do Colégio Pedro II. Escreve periodicamente para as revistas ArtNexus e DasArtes. Recebeu o Prêmio Marcantônio Vilaça de curadoria (2015). Como curador de exposições e mostras de cinema, destaque para Quando o tempo aperta (Palácio das Artes, Belo Horizonte e Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro, 2016); Derek Jarman – cinema é liberdade (Caixa Cultural Recife, 2014); Água mole, pedra dura (I Bienal do Barro, Caruaru, PE, 2014); Deslize <surfe skate> (Museu de Arte do Rio, 2014) e City as a process (Ural Industrial Biennial, Ekaterinburgo, Rússia, 2012). Organiza sua produção crítica e curatorial no blog Gabinete de Jerônimo.