Para dentro do homem era um sem fim, e pouco ou nada do que continha lhe servia de felicidade. Para dentro do homem o homem caía. (Valter Hugo Mãe, O Filho de Mil Homens).
Onde termina o corpo e começa todo o resto? O espaço e o limite entre aquilo que sobra, ameaça a ordem. Membros e extremidades prolongando-se mais do que o necessário; pedaços que nascem no lugar errado e logo se espalham. Ou apenas morrem de um dia para outro, como se nunca tivessem ali brotado. O abjeto, o monstruoso.
O começo é sempre queda, vazio. O corpo só é unidade quando algo o separa do mundo. Sem esse limite não há sujeito, não há forma. Sem identidade resta só o abismo.
No vídeo em que aparece deslocando-se sobre as páginas arrancadas de um atlas, enquanto tenta apagar as fronteiras dos mapas com um pó de talco, Maya Weishof introduz parte do processo desenvolvido na série de pinturas desta exposição. Mapas, afinal, guardam uma semelhança com os corpos disformes apresentados aqui. Territórios também só ganham nome e forma quando separados por limites. Ao caminhar sobre esses pedaços de papéis que ali entendemos como mundo, utilizando o próprio corpo como medida, a artista dimensiona a fragilidade desses conceitos. Eliminar as fronteiras desses territórios é devolver a ideia à pura abstração.
A ação quase pictórica presente em Novo Atlas Escolar Português (2017), vídeo feito logo após voltar de uma residência artística em Portugal, funciona como uma boa transição para o conjunto recente de pinturas. Como o redesenho cartográfico ali realizado, também há nas telas um processo constante de eliminação – seja dos contornos das figuras, quase sempre indefinidos; ou no desmembramento de estruturas que ganham vida e passam a existir sozinhas, embora nada indique que irão se sustentar por muito tempo. Deslocados e dilatados, esses fragmentos – mãos, olhos, dentes – parecem vagar em busca de uma base que não se sabe se existe.
Entre o deslocar-se dos corpos em trânsito e a representação de corpos transgressores, as imagens criadas pela artista se aproximam das discussões sobre o abjeto trazidas por Júlia Kristeva em Pouvoirs de l’horreur (1980). Partindo do termo psicanalítico que define o abjeto como algo a ser eliminado para a constituição do eu, Kristeva utilizou o conceito para explicar processos discriminatórios como o antissemitismo e a xenofobia, ameaças à suposta unidade de um grupo e sujeitos hegemônicos. O aumento do fluxo global e a dissolução de limites identitários nas últimas décadas tornou essa discussão mais latente.
O corpo feminino, associado desde sempre a processos imprevisíveis que fogem à ideia de limite e ao controle da racionalidade, predomina nas figuras retratadas por Maya. Em uma delas, o rosto de uma mulher sem tronco se desenvolve sobre uma profusão de braços e mãos desproporcionais, enquanto no tríptico os membros assumem toda a forma dos corpos, já sem nenhuma face.
“Subitamente, metade das coisas pareciam compostas”, escreve o narrador de O filho de mil homens, romance de Valter Hugo Mãe. O personagem que antes era um vazio sem fim agora se completava com as partes que lhe faltavam perdidas pelo mundo.
A frase é também uma boa definição para os corpos desmembrados nas pinturas de Maya Weishof. De metade em metade espera-se que algum dia elas se encontrem, ou cheguem a algum lugar.
Nathalia Lavigne
Pensar o corpo como uma possível medida do mundo é uma das questões que permeiam a primeira individual de Maya Weishof em São Paulo, em cartaz a partir de 10 de abril no projeto Zip’Up. Após desenvolver uma série anterior utilizando mapas, em que discutia temas como a cartografia e território, a artista curitibana volta-se desta vez para os limites e deslocamentos do corpo, retratando-o por meio de seus fragmentos e extremidades.
Estruturas que se multiplicam e compartilham o mesmo espaço ou membros em dimensões protuberantes surgem em formas diluídas no conjunto de pinturas sobre módulos tridimensionais e óleos sobre tela. Complementa a mostra Há sempre um corpo que sobra o vídeo Novo Atlas Escolar Português (2017). Desenvolvido logo após uma residência em Portugal, o trabalho parte de uma ação quase pictórica, na qual a artista usa um pó de talco para redesenhar as fronteiras dos mapas, caminhando sobre as páginas arrancadas do atlas.
“Há uma vontade de dimensionar o plano que vivo, uma intenção de compreender o espaço inalcançável pelos nossos pés, um pouco refém da dimensão do mundo e da incapacidade de mudança”, afirma a artista.
Com curadoria de Nathalia Lavigne, a mostra fica em cartaz até 12 de maio.
Idealizado em 2011, um ano após a criação da Zipper Galeria, o programa Zip’Up é um projeto experimental voltado para receber novos artistas, nomes emergentes ainda não representados por galerias paulistanas. O objetivo é manter a abertura a variadas investigações e abordagens, além de possibilitar a troca de experiência entre artistas, curadores independentes e o público, dando visibilidade a talentos em iminência ou amadurecimento. Em um processo permanente, a Zipper recebe, seleciona, orienta e sedia projetos expositivos, que, ao longo dos últimos seis anos, somam mais de quarenta exposições e cerca de 60 artistas e 20 curadores que ocuparam a sala superior da galeria.
Sobre a artista
Maya Weishof (Curitiba, PR) é graduada em Artes Visuais pela Universidade Federal do Paraná - UFPR. Participou do grupo de investigações práticas em pintura, sob orientação de Regina Parra e Rodolpho Parigi; e do Núcleo de Artes Visuais SESI, sob orientação de Ricardo Basbaum. Em 2016, foi selecionada para o programa de residência artística da Zaratan Arte Contemporânea em Lisboa, Portugal. Exposições individuais: Tente ver o oceano (Boiler Galeria, Curitiba PR. Curadoria de Ulisses Carrilho, 2016) e Existe uma medida do mundo (Acervo Independente, Porto Alegre - RS. Curadoria Isadora Mattiolli, 2017). Principais exposições coletivas: A Vastidão dos Mapas (Museu Oscar Niemeyer, Curitiba, 2017), com curadoria de Agnaldo Farias; Confluências Poéticas (SESC Paço da Liberdade, Curitiba, PR).
Sobre a curadora
Nathalia Lavigne (Rio de Janeiro, RJ) é crítica de arte, curadora e pesquisadora. Doutoranda pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP), é mestre em Teoria Crítica e Estudos Culturais pela Birkbeck, University of London e graduada em Jornalismo pela PUC-RJ. Escreve para publicações como Artforum, Select, Folha de São Paulo, entre outras. Foi uma das pesquisadoras do projeto “Observatório do Sul”, plataforma de discussões promovida em 2015 pelo Sesc São Paulo, Goethe-Institut e Associação Cultural Videobrasil. Realizou curadorias como Imagem-Movimento (Zipper Galeria, 2016), Apagamento - Renato Castanhari (Galeria Sancovsky, 2017), entre outras; e o acompanhamento crítico da mostra Still Brazil, de Daniel Jablonski (Paço das Artes, 2018).