O primeiro movimento do olhar é absorver os desenhos de Camilo Meneghetti em sua totalidade, para, a seguir, reconstruí-lo por suas partes. De cara avista-se uma paisagem selvagem, indômita e talvez intocada pelo homem. O detalhamento que constrói a imagem cria pequenos oásis onde seu caráter de não-imagem ganha força. Fica para o observador a impressão de que nesses espaços, onde o mundo não está replicado, cheiros, sabores e toques são tomados como signos visuais.
E então as coisas começam a mudar. Onde se viam florestas a impressão de caos urbano se impõe, onde estavam as paisagens agora surgem representações sinestésicas do mundo. Só então se percebe que nenhuma imagem imita o mundo, há apenas o papel e o depósito de materiais sobre ele.
O artista parece chamar a atenção para os materiais de seus desenhos, retirando assim o observador da representação fiel do mundo para jogá-lo no universo sensível compartilhado por artista e público. Esses desenhos são mais do que retratos ou paisagens, são reflexos de um universo transposto para o papel em por um movimento quase escultórico. Dos detalhes paulatinamente apresentados pelo artista notam-se índices sobre sua fatura, e mais: índices sobre a harmonia desencontrada do mundo.
Camilo ataca o papel criando uma massa, um volume negro que se desfaz diante do olho e gera a sensação de se estar diante de uma paisagem. Uma que só pode ser vista pela imaginação de quem olha. O artista está desbastando o desenho, como fazem os escultores. Retirando camadas de matéria (grafite) e implantando imagens, sensações, sabores, cheiros etc. É um processo escultórico do desenho que se faz entender no desencontro dos códigos visuais para expandir o olhar para todos os sentidos humanos.
Paulo Gallina
(29.07.2014)
Paisagem Imaginada apresenta ao público paulistano desenhos viscerais criados por Camilo Meneghetti ao longo dos últimos três anos. Nessas imagens as formas – simulacros do mundo material – foram rasuradas e apagadas até se transformarem em massas, moldes disformes para serem a seguir novamente esculpidos. Assim, o artista apresenta obra e processo a um só tempo em cada um de seus desenhos.
Desenho? Quando se fala do trabalho de Camilo utiliza-se um vocabulário próprio da escultura, comentando moldes, lapidações, exclusões, oclusões e inserções. O pensamento sobre a obra torna-a híbrida, sem um suporte definitivo, porém, com seu trabalho, Camilo Meneghetti está buscando a raiz do desenho e da linha, ao tornar caótica a imagem que se espera limpa sobre o papel. Estas massas de grafite e carvão, seus desenhos, atuam como a mente humana: construindo representação e narrativa a partir de materiais e formas que anteriormente simplesmente existiam, sem sentido e sem a capacidade de narrar.
Sobre o artista
Camilo Meneghetti nasceu em 1978 em Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul. Atualmente vive e trabalha na cidade natal e em São Paulo. Formou-se em Publicidade e Propaganda pela UNISINOS - RS (2003). Trabalhou como diretor de arte de 1999 a 2011. Durante este período também atuou como ilustrador. Em 2003, estudou desenho e pintura da figura humana. Em 2007, acompanhou estudos em pintura realista e frequentou o curso de desenho do Atelier Livre de Porto Alegre. Entre 2012 e 2014, frequentou o grupo de Acompanhamento de Projetos do Hermes Artes Visuais, orientado pelos artistas Nino Cais e Marcelo Amorim. Em 2013, foi colaborador no Ateliê397 e artista residente na Tofiq House - São Paulo.
Exposições recentes: 2014, Ateliê Alê / Pinta Special Project, Pinta London - Londres, Inglaterra (Curadoria: Paulo Gallina); 2014, O Saber da Linha, Ateliê Alê - São Paulo (Curadoria: Paulo Gallina); 2013, Open Studio, Tofiq House - São Paulo; 2013, Surpraise, Ateliê397 - São Paulo; 2013, Mapoteca, Hermes Artes Visuais - São Paulo (Curadoria: Nino Cais e Carla Chaim).