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[...] o olhar vertiginoso não precisa sequer de uma fissura explícita para se entregar.
Luciana Paiva, Precário: fragilidade e instabilidade na imagem.
Poderia essa dispersão de objetos, tão banais e precários, coadunar em uma inusitada constelação gráfica? Meros papéis (ou apenas suas imagens), ora ancorados sobre a parede, como esses pequenos abismos ordenados, ora emergindo impassíveis do solo, como insólitos objetos tectônicos; seja como for, a densidade não se dissipa: nada parece redimir esses recibos de sua condição de resto/rastro depreciado de uma transação comercial.
O registro da compra como uma adesão silenciosa que se faz inscrever: os tickets, vias do cliente, comprovantes de compra, emitidos pelos sistemas informatizados de débito e crédito bancário, reiteram a dimensão mercantil da experiência cotidiana. Via: dubiedade semântica entre a nota de registro e a visão pretérita/olhar obsoleto... talvez um percurso? À vista: modalidade de fatura imediata ou aquilo que adere ao campo escópico. Vivemos, desde já, esse esgarçamento, condição da memória como paisagem.
Que a artista opte por esse suporte, em sua qualidade de rastro urbano, não causa espanto; Iris Helena o vem explorando há anos em meio a suas investigações acerca das noções de construção, representação, registro e ressignificação da memória urbana como fenômeno afetivo e social. No entanto, aparentemente, aqui ela abdica da intervenção por meio dos processos de impressão. Onde antes havia o interesse pela trama da sobreposição de inscrições (série arquivo morto [2014]), pela imagem da cidade que vai habitar, de bom grado, todo o tipo de suporte provisório da escrita (o post-it, o marcador de página... o cupom) ou de escombros (séries casa pré-fabricada [2016]), agora afigura o fascínio pela supressão, pela estratigrafia da inscrição. Em todo caso, estamos entregues ao enlace da memória: eis nosso próprio bloco mágico, no qual se tramam e enervam as inscrições e no qual todo apagamento é vivenciado como um evento de superfície. Afinal, a efemeridade da inscrição no papel termossensível faz deste esvaecimento condição destes subprodutos; evidências de um regime comercial condicionadas pela fugacidade do registro, tendo a obsolescência por programa e a efemeridade como suposta garantia de segurança/sigilo (e, em última instância, de um ideal metropolitano de anonimato).
O amontoamento destes comprovantes se dá por causas incidentais e seu acúmulo sistemático por finalidades comprobatórias. Mas, aqui, não se trata de nenhum dos dois. O que justifica esse conjunto? Seriam as mesmas motivações misteriosas das coleções, impulsionadas por sua perpétua incompletude? Seria a conduta rigorosa da coleta laboratorial? Seria o ímpeto arquivístico, na constituição de um inusitado acervo de tickets, na qual toda a existência é vertida nessas diminutas ruínas do consumo? Podemos, ainda, impelidos pela inconsequência de nossos devaneios, sonhar em cardumes: pensar nos depósitos salinos das estalactites, na cumplicidade dos grãos de uma duna, na afinidade milenar das rochas irmanadas em uma montanha - enfim, recorrer a toda sorte de geologias de pequenas gramaturas. Afinal, a via do consumidor é também uma ocorrência cromática, com azuis atmosféricos, esmaecidos amarelos matinais e horizontes lilases-crepusculares, como curiosas auroras boreais ortogonais, expressão mecânica que sinaliza senão o fim da bitola.
A fugacidade das informações impressas contrasta com a persistência das informações institucionais/burocráticas que teimam, ainda, em fazer-se inscrição. A fragilidade do suporte faz com que a simples manipulação ou acondicionamento imprudente produzam-lhe novas texturas, sugiram-lhe novas plasticidades (a dobra, o rasgo, o amassado, as fraturas fibrosas) ... e, assim, por artifício da artista, revelam-se as topografias do descarte, que convertem estes pequenos restos depreciados em sutis eventos poéticos, em acidentes geológicos, paisagens vertiginosas, arquiteturas obtidas pela improvável engenharia dos vincos e dobras. Sobre o rastro do consumo, sonha o geólogo de papéis, para o qual todo relevo é iminência de apagamento ou de obscurecimento completo na noite da palavra (como demonstra um dos objetos da série indícios); todo rumor tectônico insinua-se no confronto inexorável entre a textura do desgaste e a textualidade em estado de desaparição.
O abandono (uma poética não propriamente do detrito, mas da matéria em desamparo) converte-se em um sistema construtivo no qual a textura preenche toda a superfície, ocupa a vacância do texto e sugere-se como uma escritura do incessante. São essas paisagens indiciais (como sugere o título da série), essas arqueologias, mitologias, esses quadrantes, que constituem um universo de reminiscências, no qual a precariedade singela mobiliza-se e faz resistência contra a ávida fúria do bom funcionamento [SOUSA: 2007, p. 12].
Matias Monteiro
Brasília, 2016
COURTOISIE, Rafael. Estado Sólido. In: Jinetes del aire: poesía contemporánea de Latinoamérica y el Caribe. Santiago, Chile: Ed. RIL editores. 2011.
PINHEIRO, Luciana Paiva. Precário: fragilidade e instabilidade na imagem. Brasília: Universidade de Brasília, Instituto de Artes, 2010.
SOUSA, Edson Luiz André. Uma Invenção da Utopia. SP: Lumme Editor. 2007.
A Zipper Galeria realiza a primeira individual em São Paulo da artista paraibana radicada em Brasília Iris Helena. Paraísos Fiscais, em cartaz a partir do dia 13 de agosto, reúne um conjunto de trabalhos inéditos que refletem sobre os mecanismos de construção da memória e os processos de documentação e representação no espaço urbano. Com curadoria de Matias Monteiro, a exposição integra o projeto Zip’Up, dedicado a mostras experimentais e propostas curatoriais inéditas.
Na exposição, Iris realiza um novo trabalho com um material extremamente ordinário da vida urbana: comprovantes de pagamento de papel termossensível, tomados por ela como singelos incidentes cromáticos. “O resultado é uma espécie de topografia do descarte, que converte esses tickets em geologias precárias e singelas arquiteturas, novas paisagens potenciais que, longe de buscar redimi-los de sua condição de resíduo, viram pequenos eventos poéticos”, afirma Iris.
A artista aproveita as texturas geradas pelo desgaste do papel e o processo de apagamento de inscrições para investigar noções como registro, documentação ressignificação a partir de um suporte banal do contexto comercial. “A fugacidade programada das informações impressas nestes recibos reforça a condição deles de de resto depreciado de uma transação”, analisa. Paraísos Fiscais fica em cartaz até 10 de setembro.
Sobre a artista
Iris Helena nasceu em João Pessoa, PB, em 1987. Vive e trabalha em Brasília, DF. Seu trabalho explora a paisagem urbana e realiza diálogos entre as imagens de cidades e os suportes onde são impressas. Post-its, marcadores de páginas, cartelas de remédio, cascas de parede, papel higiênico, entre outros materiais, redimensionam as paisagens quando aparecem como matéria-prima de suas instalações. Formação: graduada em Artes Visuais pela Universidade Federal da Paraíba, PB, e mestre em Poéticas Contemporâneas pela Universidade de Brasília, DF. Principais exposições individuais: Marcadores, Portas Vilaseca Galeria. Rio de Janeiro, RJ, 2015; Caminho por uma rua que passa em muitas cidades, Galeria Archidy Picado - FUNESC. João Pessoa, PB, 2013; Ode à Sena, Sena Madureira, AC, 2012; Notas de Esquecimento, Aliança Francesa. João Pessoa, PB, 2009. Principais exposições coletivas: 61o Salão de Abril, Fortaleza, CE, 2010, II Prêmio EDP nas Artes, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, SP, 2011; City as a Process, II Ural Industrial Biennial of Contemporary Art, Ekaterinburg, Rússia, 2012.
Sobre o curador
Matias Monteiro, doutorando em Arte na Universidade de Brasília, DF, é artista, curador, professor e desenvolve atividades junto a programas educativos em museus e centros culturais. Atuou como Palestrante e Produtor de Conteúdos para o Educativo Bienal da Fundação Bienal de São Paulo; integrou o corpo curatorial do programa RUMOS Itaú Cultural 2011-2013; participou como Consultor Pedagógico do projeto Gente Arteira da CAIXA Cultural Brasília; ministrou cursos em arte contemporânea e participou do desenvolvimento de materiais no contexto do prêmio Energias da Arte (Instituto Tomie Ohtake/Instituto EDP); foi professor do curso de Licenciatura em Artes Plásticas da Faculdade Dulcina de Morais, FADM, e do curso de Bacharelado em Museologia da Universidade de Brasília (FCI/UnB).