Espectros em concreto
Rascunhos sobre a obra recente de Matias Mesquita
"Esvaídos de sentido pleno, tornam-se sepulcros da permanência, numa distopia da ilusão."
"As filas, consequência sintomática desta máquina burocrática, personificam seu estado, cunham sua hereditariedade e concretizam seu controle social."
Essas frases, extraídas de textos de Matias Mesquita, sintetizam dois aspectos fundamentais de sua produção recente, que aqui se apresenta dividida em dois grupos relacionados. O suporte e a materialidade de sua obra não são neutros, como a tradicional tela branca, mas se confrontam com a imagem construída pelo artista, ativando em alguns casos um jogo de opostos e em outros um complemento simbólico.
Os materiais utilizados como suportes operam como índices da realidade urbana contemporânea, dando conta de sua condição industrial, massificada e anônima.
A primeira série, chamada genericamente IMPERMAN?NCIA, traz imagens realistas de céus pintados sobre placas de concreto de diferentes tamanhos e formas. A representação fiel de fotografias tomadas pelo artista do céu de Brasília, com sua característica luminosidade e arquitetura de nuvens, ao ser registrada em material tão alheio às tradições artísticas, mas tão presente na vida urbana, gera uma situação de estranheza e fria sedução.
Esse instante efêmero, capturado e reproduzido pictoricamente, parece fixado, preso no concreto, como um lembrete de sua beleza frágil, sua provisória memória, e da inexorável passagem do tempo.
A segunda série, ainda sem título e realizada especialmente para o espaço da Zipper, aborda a representação da fila. Este emblema performático da burocracia, do controle e da coesão social encontra como suporte ideal os materiais industriais que conformam a estrutura da urbe contemporânea. Assim, como um emblema da vida urbana, o indivíduo anônimo projeta seu espectro na cidade onde vive.
Temporalidade, matéria e memória constituem os elementos essenciais com os quais Matias Mesquita constrói a imagem da realidade onde vive.
Uma poética refinada e brutal.
Manuel Neves
Brasilia, janeiro de 2015
No dia 23 de janeiro, às 19h, a Zipper Galeria inaugura, juntamente com o "6º Salão dos Artistas Sem Galeria", a exposição Traços de Impermanência, individual de Matias Mesquita, artista carioca radicado em Brasília. A mostra inaugura a parceria triangular entre a Zipper Galeria, o Ateliê397 e o Elefante Centro Cultural, tendo em vista a criação e ampliação de espaços de diálogo e intercâmbio entre artistas, curadores e instituições.
Com texto de apresentação de Manuel Neves, a exposição traz trabalhos recentes do artista, apresentando a série Impermanência, em que imagens realistas do céu de Brasília, tomadas pelo artista, são delicadamente pintadas sobre a dureza e rispidez de blocos de cimento, tão presentes na banalidade da vida urbana. Nas palavras de Neves: "Esse instante efêmero, capturado e reproduzido pictoricamente, parece fixado, preso no concreto, como um lembrete de sua beleza frágil, sua provisória memória, e da inexorável passagem do tempo”.
Mesquita apresenta, também, trabalhos de uma segunda série, realizada especialmente para esta mostra, ainda sem título, que aborda a representação da fila, "emblema performático da burocracia, do controle e da coesão social", segundo Neves, tratando da inconformidade da vida individual e orgânica dos seres humanos com a cidade racional e planejada, posta metaforicamente em peças modulares de madeira, gesso, cimento e drywall, unidades fundamentais da construção da cidade moderna.
Sobre o curador
Manuel Neves (Montevidéu 1973) é crítico de Arte (AICA), historiador e curador independente. Diplomado com distinção em Teoria e práticas da linguagem e das artes na EHESS (l'École des hautes études en sciences sociales), Paris. Tem realizado projetos curatoriais e prefaciado exposições em Montevidéu, Buenos Aires, Brasília, Santiago do Chile, Lima, Miami, Paris, Porto, Roma e Washington. Obteve no Salão Municipal de Montevidéu 2004 o prêmio Projeto Curatorial e, em 2007, o prêmio Fundos concursáveis 2007 do Ministério de Educação e Cultura uruguaio, na categoria Pesquisa. Publicou três livros sobre arte uruguaia e um sobre arte brasileira. Curador residente no Elefante Centro Cultural Brasília.