A marreta que golpeava com violência a imagem projetada na parede anunciava o que estava por vir. No minuto final do vídeo Derrube (2009), o desaparecimento da imagem e o rombo deixado em seu lugar sinalizavam o território para a onde a pesquisa artística de Celina Portella se encaminharia ao longo de toda a década seguinte. A fantasmagoria. O absurdo. O ininteligível.
Iconoclash é o momento em que não se sabe, é quando se hesita, quando se é perturbado por uma ação para a qual não há maneira de saber, sem uma investigação maior, se é destrutiva ou se é construtiva[1]. O termo cunhado por Bruno Latour é aplicável ao momento em que o corpo adentra o fantasmagórico. Derrube é totalmente iconoclash não só pelo gesto de macular o suporte, mas de derrubar certezas, atravessar a brecha, ultrapassar o escombro. Se um processo criativo for comparado a um edifício, Derrube instaura a instabilidade como pedra fundamental. Sobre a pedra, apoia-se uma cadeia de paradoxos: o derrubar e o reparar; o inscrever e o apagar; o destruir e o reconciliar.
Manobras, primeira individual de Celina Portella na Galeria Zipper, tem lugar quando toda ordem mundial estabelecida foi derrubada. Diante do escombro, a artista abre a mesma caixa de ferramentas de onde, há dez anos, tirou uma marreta para demolir certezas, e empunha os instrumentos que usará para continuar seu exercício incansável de abrir brechas entre o mundo físico e a imagem que fazemos dele.
II. A tesoura
Iconoclash, continua Latour, é aquilo que ocorre quando há incerteza a respeito do papel exato da mão que trabalha na produção de um mediador, para acessar alguma outra coisa.
Toda a ênfase do trabalho de Portella permanece na mão. Trata-se de desenvolver táticas que arremetem sobre os limites da matéria, testando resistências e abrindo acessos.
Na série fotográfica Corte (2019), que deu origem aos trabalhos desta individual, o instrumento é a tesoura. As imagens Corte I, II, II e IV operam uma cisão temporal. O corpo da artista, em interação com a própria imagem, recorta o papel do qual ela é feita. Ele edita a representação de si mesmo, incorporando um passado discernível por meio das roupas que veste (saia longa e blusa rendada) e do contexto que habita (interior de casa antiga com luz natural que entra pela janela).
Afirma Didi-Huberman que a imagem não é um simples corte praticado no mundo dos aspectos visíveis. É uma impressão, um rastro, um traço visual do tempo que quis tocar, mas também que outros tempos suplementares – fatalmente anacrônicos, heterogêneos entre eles – que, como na arte da memória, não pode aglutinar[2].
O corte inferido pela lâmina da tesoura de Celina Portella trava uma relação oblíqua com a memória da pintura e com a história da arte. Abre uma brecha para o “imenso e rizomático arquivo de imagens”, de onde podem emergir memórias tão heterogêneas quanto as pinturas Saudade (1889) e Amolação Interrompida (1894), de Almeida Junior. Subitamente, entende-se que tesoura manejada pelo corpo fotográfico possa ter saído da mesma caixa de ferramentas que conteve o lápis que escreveu a carta que provocou saudade na mulher pictórica. Ou que guardou a pedra que amolou a lâmina do machado do caipira no riacho.
III. A faca
Em Risco (2020), o mesmo traço semicircular da série Corte é executado por uma faca. Mas a superfície implicada agora é a tela, suporte tradicional da pintura. Aqui as referências à pintura novecentista brasileira se dissipam: o fundo passa a ser a superfície branca e apta à recepção da imagem projetada. Migra-se da iconografia novecentista para o cubo branco modernista. Iconoclash.
A mão em punho e o gesto em riste. O enquadramento da faca que risca a tela, nas quatro imagens que compõem a série Incisão (2020), ressalta o dispositivo-tema da exposição: a manobra. Em uma espécie de antropologia do gesto, os quadros aqui articulam uma frase escrita sobre páginas soltas, iluminando a produção verdades e inverdades, contida em todo ato narrativo.
IV. O fogo
Nos trabalhos sobre cisões, brechas e lacunas, Portella problematiza o ciclo de ícono-crises[3], de idolatria e ódio, de dogmatismo e irracionalidade, vividos hoje no Brasil: florestas e acervos queimados por descaso e permissividade; destruição e crime ambiental, agravados pela multiplicação de conflitos sociais.
Nas obras cujo meio disruptivo é o fogo, as imagens ardem em seu contato com o real [4]. Na série Queimadas (2020), cada imagem se configura como um caractere distinto de um texto ainda por ser escrito. Organizadas em um diagrama similar ao de uma folha de contatos da fotografia analógica, essas imagens estariam em estado pré-edição, anterior à montagem, à produção do saber crítico. Em estado bruto. O não-saber.
Na impossibilidade do controle, as fotografias ardem no contato com o choque do real: Perícia aponta que incêndio no Pantanal foi provocado por ação humana; produto usado para apagar fogo na Chapada dos Veadeiros é tóxico e efeito é desconhecido; um ano após vazamento de óleo no Nordeste, nenhum responsável foi identificado.
Na dupla de fotografias Fogo e Flama (2020) e no vídeo Fogo-fátuo (2020), o corpo é novamente agente da destruição da própria imagem, queimando o papel do qual é feito. O absurdo daquilo que arde sem queimar, ou daquilo que queima sem arder, evoca a magnitude dos desastres do mundo contemporâneo.
Passadas duas décadas de Iconoclash e alguns meses sob a pandemia, Bruno Latour publicou um texto dizendo ver na antiga ordem mundial – que se pensava impossível mudar – uma “plasticidade espantosa”[5]. Nas manobras aqui produzidas por Celina Portella, na crise produzida por seu martelo iconoclasta, por sua faca sacrificial e por seu fogo controlado, sobrevoa a pergunta: existirá um sistema capaz de resistir à viralidade da ação política da arte e de seus instrumentos?
Paula Alzugaray
[1] LATOUR, Bruno. “What is Iconoclash? Or is there a world beyond the image wars?”. In: Iconoclash – Beyond the image wars in science, religion and art. Organização Bruno Latour e Peter Weibel. Karlsruhe: ZKM Center for Art and Media, 2002.
[2]-DIDI-HUBERMAN, Georges. “Quando as imagens tocam o real”. In: ahttp://artxibo.arteleku.net/es/islandora/object/arteleku%3A3125
[4] Idem.

















Em “Manobras”, a artista Celina Portella reúne nova produção que rompe as fronteiras que, em tese, separam os territórios da imagem, do suporte e da performance. Com texto crítico de Paula Alzugaray, a exposição inaugura no dia 07 de novembro – sábado, das 11h às 17h – e segue em cartaz até 18 de dezembro de 2020.
Celina transborda a ação representada na imagem para a realidade. A ferro e fogo, ela materializa a ação nos suportes dos trabalhos presentes da exposição, em fotografia, vídeo e tela. Assim, a imagem da faca em punho sugere ação da incisão; o processo é reforçado pelo corte real, de fato, que se observa no papel, criando a vinculação entre a imagem e seu suporte. O mesmo ocorre nos trabalhos em fotografia queimada e no vídeo “Fogo-fátuo”: a vela acesa da imagem materializa seu efeito no papel em que a fotografia é impressa.
Celina Portella propõe, sobretudo, uma indissociação entre performance e meio. “Os trabalhos conectam corporeidades, o corpo em si e o corpo da obra, colocando em questão o suporte da imagem e, logo, a percepção e a ideia de realidade. A partir da interação entre a expressão corporal e o meio, fotografia e vídeo tornam-se partes estruturais do próprio trabalho, indissociáveis. A interseção entre a corporeidade das obras e os significados contidos nelas me interessa por pressupor ações presentes em outros tempos-espaços e sugerir realidades paralelas”, ela comenta.
Tal como no Espacialismo de Lucio Fontana (1899-1968), a investigação de Celina não apenas sugere a superação do suporte como um meio bidimensional, como busca cruzamentos entre a representação e sua materialidade e agregar nos trabalhos as dimensões da passagem do tempo e das transformações do espaço. Ou, como interpreta a crítica Paula Alzugaray, “Celina coloca em cheque ciclos de ícono-crises, de idolatria e ódio, vividos atualmente no Brasil: acervos museográficos queimados pela ação do descaso e do esquecimento; destruição de ícones religiosos por teoclastas intolerantes; políticas públicas arduamente conquistadas, desfeitas por governantes guiados pelo pensamento ideológico extremista”.
A abertura da exposição acontecerá de acordo com os protocolos de segurança sanitária em vigor, que preveem medidas como: uso obrigatório de máscara pelos visitantes e colaboradores da Zipper; disponibilização de álcool em gel para visitantes e colaboradores; visitação limitada a 20% da capacidade instalada; manutenção de distanciamento mínimo de 1,5 metro entre clientes e colaboradores; higienização constante das instalações.
Sobre a artista
Celina Portella (Rio de Janeiro, 1977) estabelece diálogos entre arquitetura, cinema e performance, caracterizando sua pesquisa nos campos da representação do corpo e sua relação com o espaço. Utilizando o próprio corpo como objeto de experimentações no espaço, a artista combina práticas quase artesanais em vídeos, fotografias ou foto-objetos que desafiam características de cada suporte e a percepção por parte do observador. Principais exposições individuais: "Reunião", Caixa Cultural São Paulo (2019); “Foto objetos”, Museu Casa Sônia Menna Barreto (2018); “Movimento2”, Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, Rio de Janeiro (2014); “Vídeo-Boleba”, Centro Cultural São Paulo, São Paulo (2012); “Celina Portella-Instalações”, Dança em Foco, Sesc Pinheiros, São Paulo, Brasil (2011). Principais exposições coletivas: Festival Internacional de Arte Eletrônica (FILE); CCBB (2018), Frestas Trienal de Artes, Sesc Sorocaba (2017); XX Bienal Internacional de Artes Visuales De Santa Cruz de la Sierra, Bolívia (2016); TRIO Bienal, Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro (2015); Territórios de Afetos, Fundação Joaquim Nabuco, Recife (2009).
Texto crítico: Paula Alzugaray
Paula Alzugaray é curadora independente, critica de arte e jornalista especializada em artes visuais. Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e Mestre em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da USP. É diretora de redação da revista de arte e cultura contemporânea seLecT e editora da seção semanal de artes visuais da revista Istoé. É autora do livro “Regina Vater: Quatro Ecologias” (Oi Futuro/Fase 3, 2013). Entre seus projetos curatoriais recentes incluem-se as exposições “A Invenção da Praia: Cassino”, no Istituto Europeo di Design, Rio de Janeiro (setembro 2017), “A Invenção da Praia”, no Paço das Artes SP (Abril -junho 2014), “Circuitos Cruzados – Centre Pompidou Encontra o MAM”, no MAM SP (Jan-Mar 2013); “+2 – Katia Maciel e André Parente”, na Caixa Cultural de Brasília (Setembro de 2012); “Latin America Uncontained”, na LOOP Fair Barcelona (Maio 2012); “Video Brésilienne: un Anti-Portrait”, no Centro Georges Pompidou (Paris, outubro de 2010) e “Observatórios”, no Itaú Cultural, em Belo Horizonte e Vitória (2009). É autora do documentário “Tinta Fresca” (2004), prêmio de Melhor Media Metragem na 29ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e de “Shoot Yourself” (2012), documentário realizado durante residência no Centre International d’accueil et d’échanges des Récollets, em Paris, Prêmio em Poéticas Investigativas, no Cine Move Arte 2012.


